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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

AULA DE MESTRADO

A angústia da concorrência compensou quando verificou seu nome entre os mais bem classificados. Os olhos vibravam, as mãos suavam, falava sem parar. Compartilhou o sucesso com amigos, informou à sogra que ganharia o triplo do salário, disse para a mãe escolher dois vestidos e dois pares de sapatos na loja mais cara.

- Minha mãe merece, dizia para si mesma enquanto folheava o jornal e bebericava alguns goles de café.

Cursara economia, especializara-se em exportação bovina e depois de esforços incontáveis, noites incompletas, reclamações do marido, cobranças das amigas abandonadas, finalmente entraria no mestrado.

Pensava no glamour, nas dezenas de entrevistas que jornais, rádios e televisão solicitariam, dos problemas complexos que seriam apresentados a fim de solucionarem as pendências da sociedade. Que viessem todos os problemas, inclusive os de lógica. Mestranda em filosofia, responderia a qualquer questão.

No início de março despediu-se do marido, deixou os filhos na escola, advertiu a mãe de que não almoçaria com ela, desmarcou a massagista, confirmou a manicure às 19h30, conferiu cadernos, dois livros, garrafa de água sem gás e dois chocolates Batom.

Sociólogos, matemáticos, literatos, advogados, engenheiros, jornalistas, designers, administradores, psicólogos, historiadores, economistas, dois agrônomos, três teólogos e dois alunos especiais compunham a classe heterogênea.

Os dezoito primeiros meses transcorreram como a queda de algodão doce na ponta da língua. Mais um semestre, as aulas acabariam. Daí em diante, dedicar-se à revisão, à reflexão e aos consertos metodológicos, teóricos, formais e estilísticos da dissertação que, como gostava de frisar o professor da disciplina de regras da ABNT, deveria ir além das trezentas páginas.

Uma dupla de docentes ministraria a disciplina dividida em três tardes com duração semanal de quinze horas. Ignorou as piadas dos professores que se referiam às colegas como “terror” e “monstros” do departamento. “Monstros” porque talvez cobrassem extenuantes exercícios de análise, horas excessivas de leitura, trabalhos longos e complexos, participação ativa e intensa nos debates.

Dormiu mal, imaginando como faria para novamente conciliar as atividades de aluna, mãe, esposa, filha, amiga, profissional. Realocou alguns horários e pensou em abrir mão ou pedir licença do trabalho durante aqueles seis meses. “Terror” e “monstros”: duas palavras que a acompanharam durante a véspera da aula e se esticaram durante o dia até o momento de entrar na sala, cumprimentar os colegas e sentar-se desconsolada na sua carteira.

Pontualmente às 14h05, as duas senhoras trajando vestidos longos – como estivessem se dirigindo a uma grande festa – entraram na sala, depositaram o material na mesa e o giz no suporte do quadro negro.

O método didático das duas consistia basicamente na dialética. Uma perguntava, a outra respondia. Uma falava, a outra complementava. As duas se esqueciam e, com muita dificuldade e leveza, tentavam se lembrar da ordem do discurso.

- Montesquieu foi quem primeiro tratou da relação entre filosofia e educação. Não é, Ivonete?

- Claro, Claro. Montesquieu. Isso mesmo.

- Então para facilitar, vamos escrever no quadro negro, não é Ivonete?

- Claro. Vou copiar. Então me acompanhem. Montes... Montes... Quem é mesmo?

- Montesquieu, Ivonete.

- Isso. Montesquieu. Como mesmo se escreve Montesquieu.

- Sabe que também não lembro?

Cento e sessenta horas de aula. Entendia o porquê de “terror” e de “monstros” do departamento de filosofia.

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 27 de agosto de 2009.

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