terça-feira, 26 de março de 2019

FILA DO INSS


- Eu não disse que daria certo?
- Realmente tenho de concordar: deu muito certo. Fiquei com medo de ele recusar a proposta. Tão cheio de regras, tão cheio de pudores e de palavras sacras, tão cheio de etiquetas, de calça bem passada e de sapato lustroso...
- Nenhum homem resiste a uma mulher como você. Todos esses anos de academia, corrida cinco vezes por semana, alimentação equilibrada... Usou aquele vestido azul curto?
- Tiro e queda!
- Não tinha como não dar certo. Bastava um jeitinho e...
- E as coisas acontecerem. Ainda comentei com minha mãe sobre a possibilidade de ele me considerar uma dessas mulheres da vida, sem vergonha, que gosta de frequentar esse tipo de lugar...
- E sua mãe?
- Ela me disse que não tinha conversa. Se ele não fosse por bem, deveria levá-lo por mal, nem que precisasse usar da força bruta e pedir ajuda...
- Meu Deus! Sua mãe entende de homem!
- Ah, se entende! Depois que aceitou Jesus, abriu mão de muita coisa, mas ela já tinha fechado a porta na cara de médico, agrônomo, professor, advogado, gerente de banco e até um bispo prometeu largar a igreja por causa dela, mas, no fim das contas, ela apaixonou-se por meu pai...
- Atendeu seu telefone!
- Alô, meu amor. Sim. Saudades. Gostei. Adorei. Amei. Quero de novo! Hoje à noite?
- Verifique se realmente o telefone desligou. Hoje à noite de novo?
- Vou comprar uma fantasia que vi naquela loja de roupa perto da fonte. Beijos.
- Sua doida! Boa sorte.
A atendente mirou o computador:
- Próximo. Aposentadoria, pensão ou auxílio-doença?
- Motel, respondi sem maiores delongas.

terça-feira, 19 de março de 2019

A QUEM, DE FATO, INTERESSA?


Outro dia, ao almoço, o poeta – e também administrador financeiro – Ozair Campos de Lacerda iniciou a explanação do projeto de viagem à Itália. Sua pretensão: visitar as cidades mais famosas, entre elas, Roma e Veneza. A conversa sobre preço de passagens aéreas, hotéis, alimentação, seguros, rotas mais baratas já ia adiantada quando sua esposa falou tranquilamente: - Vou fazer o aniversário de cinco anos de nossa filha.
Entre um e outro argumento – entre eles, o dinheiro curto – a esposa batia o pé sobre o aniversário, ele, reforçava a economia indispensável para conseguir atravessar o Atlântico, a pequena filha, sentada à ponta da mesa, perdida em algum desenho da internet, mantinha-se calada, alheia ao debate. Virei-me para ela e, com absoluta malícia, indaguei:
- Você prefere viajar com seu pai ou festar com sua mãe?
E a menina, inteligente como todas as crianças brilhantes cujo raciocínio amadurece antes mesmo de encerrarmos nossas perguntas, disparou:
- Eu quero brinquedo!
Algumas vezes focamos em projetos pessoais – extremamente importantes para que, ao fim do ciclo terreno, afirmemos que valeu a pena ter aproveitado a vida – e inúmeras outras esquecemos de ouvir se nossos filhos, pais, mães, avós, maridos, esposas, companheiros de trabalho ou conhecidos também desejam enfrentar nossa maratona. Esquecemos que, em tantas outras vezes, a companheira ou o companheiro de viagem nunca teve ambição de ler um livro, de compreender um quadro, de se irritar com uma peça, de chorar em um filme, de elevar as mãos no ar como a reger uma orquestra imaginária, de vibrar com as vitórias.
Nossos projetos de vida são nossos projetos de vida. Por isso, quando nos despedimos temporariamente para uma viagem – qualquer que seja a viagem – ao som de “até logo”, não exibimos egoísmo, mas apresentamos amadurecimento a ponto de escolher e de colocar em prática nossas prioridades.
A quem, de fato, interessa a viagem? Ao pai.
A quem, de fato, interessa a festa de cinco anos? À mãe.
À filha interessam os brinquedos. Nem viagens internacionais, nem festança.
E, a nós, o que de fato nos interessa?