sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

PREVISÃO DO TEMPO


Sempre atrelei-me às manifestações científicas de maneira que jamais saía de casa – ao trabalho, às férias, às viagens com a família – sem antes ouvir o noticiário na televisão ou no rádio, ler jornal ou consultar sites específicos que informassem as variações de temperatura. Três dias antes de viajar em julho para participar de congresso de história em Porto Alegre, certifiquei-me de que, mesmo no inverno, a capital gaúcha nos ofereceria clima ameno. Deixei em casa a tralha desnecessária. Coloquei na bolsa calças jeans finas, camisas e camisetas, boné.


Cheguei a Porto Alegre. O primeiro dia de calor agradável transformou-se num tormento sem limites. Precisei comprar três blusas de frio, camisas de mangas compridas, dois cobertores, pulôveres, calças de moletom e um pequeno aquecedor que me levaram todo o dinheiro da semana, economizado para presentes para a mãe, a esposa e a filha.


De volta ao interior paulista, comentei minha aventura pouco heroica com minha mulher cujos olhos, recriminando-me por não tê-la ouvido, disfarçaram risos de chacota. Em fins de setembro, o escritório mandou-me a Foz do Iguaçu, famosa cidade através da qual milhares de brasileiros compram supérfluos no Paraguai. Apesar dos primeiros raios de primavera, a previsão do tempo indicava frio na casa dos quinze graus. Sem dúvidas, enchi minhas malas de cobertores grossos, blusas de frio, camisas de manga comprida e, como sabia que nos instalaríamos em apartamentos de cozinhas privativas, separei café instantâneo, chocolate quente, chá.


Para minha surpresa – e deleite da esposa que, à minha volta, já sorria estrondosamente – sofri com o calor de quarenta e dois graus, asfalto exalando fervuras que aumentavam a impressão de caminhar numa frigideira em fogo alto. Sem roupas menos calorentas e com cartão de crédito estourado, oito dias usando calças pretas, camisas de mangas compridas. Os ventiladores mantinham efeito mais estético do que prático. O ar condicionado do hotel mal refrescava quem colocava a cara em frente dele.


O próximo destino: férias de natal e ano novo ou em Florianópolis ou no Rio de Janeiro. Consultei atentamente os mapas e os sites cujos históricos declaravam o perigo em ambas as capitais durante os meses de dezembro e janeiro quando habitualmente chuvas fortes devastavam em grande escala. Alertei minha esposa e minha filha. As duas me ignoraram: ou escolhia uma das cidades, ou minha esposa viajaria com os pais a Florianópolis e minha filha, acompanhada dos amigos, ao Rio de Janeiro.


- Fico em casa. Daqui não saio. Daqui ninguém me tira.


Entre 20 de dezembro e três de janeiro, datas respectivas de partida e de retorno, fiquei desolado e sem saber o que fazer. Não tinha com quem conversar à noite nem com quem brigar durante o dia pelos sapatos espalhados, a louça mal lavada, a bagunça no banheiro, o som alto ou os controles remotos quebrados. Por outro lado, comunicávamo-nos diariamente e, a cada ligação telefônica, perguntava se estava tudo bem, se avistavam indícios de nuvens carregadas. Diante da negativa, encerrávamos a conversa e, mais uma vez, voltava ao computador para certificar-me das chuvas que levariam inúmeros problemas aos catarinenses e fluminenses.


Dois dias antes do ano novo, as águas tomaram conta de nossa cidade. Perdi o contato tanto com minha filha quanto com minha esposa. Desembarcaram, na data planejada, queimadas de praia. Perguntei como tinha sido a experiência de sobreviver às tragédias, da falta de água, de dividir a pouca comida com pessoas estranhas, convivendo em lugares insalubres e perigosos.


As duas se entreolharam. Eu tinha visto desastres na televisão? Realmente nada observara, mas imaginei tratar-se de questão de segurança nacional. Já me irritara ao extremo com a situação quando uns vizinhos convidaram-nos para fim de semana no balneário. Minha filha e minha esposa, cansadas da viagem e do sol de praia, optaram por ficar em casa. Montei no carro. Voltaria no fim da tarde seguinte. Tão queimado quanto elas. Previsão do tempo? Nunca mais.


Quando cheguei em casa, as duas não continham os risos: uma hora e meia depois de minha saída, temporal caíra, mantendo-se até a segunda-feira.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 25 de janeiro de 2013.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

VELHINHOS



Estava na fila do banco, um só caixa funcionando, 22 pessoas à frente, 18 que chegaram depois de mim. O sol forte inviabilizava o funcionamento adequado dos condicionadores de ar. Alguns pais trouxeram filhos barulhentos. Após a saída do funcionário de escritório de contabilidade que levara duas bolsas repletas de boletos, senhora de cabelos brancos, metro e cinquenta e cinco, sapatos pretos lustrosos e vestido de cor clara, venceu os dois lances de degraus, ultrapassou um por um os integrantes da interminável fila, postou-se ao lado do caixa, abriu a bolsa: três calhamaços, dinheiro e cheques.


A boa educação – e, se a boa educação não bastasse, a lei já daria jeito de sermos educados – nos ensina que as pessoas mais velhas preponderam sobre as demais. Ônibus lotado? Os mais jovens devem ceder lugares aos mais velhos. Banco, farmácia, supermercado, casas lotéricas ou correios, cinema ou teatro, na falta de caixas específicos, as pessoas da “melhor idade” têm direito ao atendimento preferencial.


Concordo plenamente com essa regra de bons modos, mas os quarenta e sete minutos que a senhorinha – ou, como diria a filha da mulher impaciente, a “velhinha tão bonitinha, tão lindinha e tão pequeninha” – ocupou no único caixa se não fomentaram o aumento de minha pressão certamente contribuíram para meu coração bater mais apressado e minha respiração chegar aos limites de sua capacidade.


A senhorinha já guardava os últimos papéis quando, como em filme de terror, um senhor de cabelos brancos, de porte atlético e de camisas listradas, ultrapassou elegantemente a fila, mostrou a carteira de identidade – da qual, de longe, se viam as letras em vermelho que informavam seus mais de sessenta e cinco anos – e, sacando a carteira, retirou boletos, dinheiro e cheques. Os pagamentos deste senhor foram rápidos: em menos de dez minutos guardava novamente a papelada. Saía sorridente, cumprimentando os homens, reverenciando as mulheres e contando piadas às crianças.


Já me animava – sete clientes tinham sido atendidos – quando óculos escuros, capacete nas mãos, jaqueta preta e botas de couro atravessaram a fila. Um cliente à iminência de atendimento protestou, mas o motoqueiro – de cabelos cor de caju e, pela estatura, freqüentador assíduo de academias de musculação – puxou documento do bolso de trás da calça e o mostrou ao indignado que, assim como eu, penava naquela situação. Carteira de identidade: 76 anos. Preferência sobre todos os outros.


Seis pessoas à minha frente desistiram de esperar depois de constatarem que, além de pagar as contas, o homem precisaria explicar detalhadamente os tipos de depósitos e transferências a serem feitos: uns identificados com nomes, outros com vários números de CPF, outros, por fim, com sequências infindáveis dispostas em códigos de barras que não conseguiam ser lidos pelo aparelho ótico. Como se não bastasse, o motoqueiro distraía o caixa (mulher de cabelos pretos, vestido vermelho e esmaltes de tom azul claro) perguntando se solteira, se gostava de sair aos fins de semana, de fazer trilhas, de churrasco, de andar de moto, de conhecer novos lugares e pessoas...


Finalmente consegui pagar meus dois papéis. Se pudesse, teria ido a outra agência ou casa lotérica. Contudo, os documentos exigiam especificamente o pagamento naquele banco. Depois de sair do escritório, passei em casa, troquei de roupa, fui ao clube. Comprei Coca-Cola. Na piscina mais afastada, jogo de pólo aquático disputado por duas equipes: uma de “jovens” e outra da “melhor idade”.


Quando me aproximei, a senhorinha, o homem de camisa listrada e o motoqueiro integravam o time da “melhor idade”: nadavam de um lado a outro, driblavam adolescentes, cansavam jovens, arquitetavam jogadas bem elaboradas.


Placar: oito a um. Para a “melhor idade”. A bola saiu da piscina. Devolvi-a aos atletas. A senhorinha de cabelos brancos convidou-me para integrar o time: desfalque de dois jogadores. Diante de minha recusa, gritou enfurecida:


- Não vai jogar? Parece velho, pô!

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) 18 de janeiro de 2013.