sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

PROMESSAS DE ANO NOVO


1 – Sair do cheque especial;
2 – Parar de tomar refrigerante;
3 – Evitar chocolate;
4 – Ingerir moderadamente açúcar, sal e gorduras de todas as espécies e lanches;
5 – Amar uma só mulher;
6 – Cultivar paixão única;
7 – Dormir cedo e acordar cedo;
8 – Falar somente a verdade;
9 – Não viajar;
10 – Não comer fora de casa;
11 – Não comprar livros;
12 – Não gastar mais do que meia hora do dia lendo Literatura;
13 – Aplicar menos de quinze minutos da primeira parte da manhã em História, Sociologia, Filosofia, Antropologia e Psicanálise;
14 – Frequentar aulas de natação, de música e de culinária;
15 – Economizar dinheiro ao mesmo tempo em que o ganho;
16 – Transformar-me num homem extremamente conservador, sério e objetivo;
17 – Parar de roer unhas;
18 – Descobrir as diferenças entre os vinhos, a importância de Mario de Andrade na Literatura e no movimento modernista, por que Clovis Bevilaqua caiu no esquecimento se admirava incomensuravelmente as mulheres e tentou alçá-las à igualdade dos homens ainda no século XIX, lutando pela paridade entre filhos adotivos e biológicos, concebidos dentro ou fora do casamento;
19 – Criar ódios, rancores e mágoas pela Literatura;
20 – Aprender, com homens de verdade, a conquistar mulheres já que os métodos de flores, chocolates, poesias, músicas românticas e cavalheirismos encantam apenas as octogenárias e servem de piada às mais jovens;
21 – Assimilar as técnicas da panqueca e do filé de frango à parmeggiana;
22 – Comprar um condicionador de ar;
23 – Ouvir menos ópera, Altemar Dutra e Frank Sinatra;
24 – Compreender como a colheitadeira separa o milho da espiga;
25 – Esquecer metas de produção científica;
26 – Caminhar aos fins de tarde naquele parque de Campo Mourão (PR);
27 – Mandar para a reciclagem as coleções de Machado de Assis, Eça de Queirós, Marcel Proust, Josué Montello, Autran Dourado, Moacyr Scliar, Josué Guimarães, Fernando Pessoa, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Alves e toda a prateleira erótica;
28 – Lavar o carro todos os sábados;
29 – Tornar-me menos recluso e mais sociável, participando de mais churrascos com música sertaneja ao fundo, mais bailes de engraçados cujos freqüentadores se julgam bon-vivants parisienses, mais comes e bebes de falsários provenientes de inúmeras denominações religiosas;
30 – Aguardar pacientemente o caixa do banco colocar em dia a fofoca com a amiga depois de passarem o fim de semana juntos;
31 – Aprender a pescar;
32 – Comprar botas, cinto, calças, camisa, fivelona e chapéu de vaqueiro;
33 – Comparecer a todos os rodeios da região;
34 – Barbear-me diariamente;
35 – Escrever um livro de contos ou de ensaios literários;
36 – Comprar ações de bancos, de empresas de informática e de construtoras;
37 – Aprender etiqueta, a comer com seis garfos, seis facas, seis colheres, oito pratos e sete taças;
38 – Descobrir as maneiras adequadas e esteticamente aceitáveis de combinar gravata, paletó e camisa;
39 – Comprar uma motocicleta e seguir o trajeto de casa até a última cidade do Rio Grande do Norte, percorrendo o país pelo litoral e parando a cada possibilidade para aproveitar o melhor do dia, das pessoas, das comidas e das bebidas;
40 – Ignorar o desperdício de tempo nos bancos;
41 – Dominar as técnicas de informática e os artifícios de computador de maneira que consiga gravar discos de áudio e de vídeo, salvar arquivos Word e utilizar brilhantemente o excel, que substituirá a calculadora arcaica e economizará semanas de vida;
42 – Comprar pão e preparar o café da manhã;
43 – Agir falsamente com os que acreditam piamente em minha ingenuidade ou ignorância a respeito de assuntos banais;
44 – Alongar diariamente depois de levantar da cama e antes de dormir a fim de evitar dores prolongadas nas costas;
45 – Falar a verdade o tempo inteiro e insistir para que minha filha, quase sempre segue o que ordeno, também fale a verdade vinte e quatro horas ao dia;
46 – Manter meu guarda-roupas diariamente organizado;
47 – Encher a cara de cachaça;
48 – Virar um recordista olímpico;
49 – Nadar em dinheiro;
50 – Comer peixe cheio de espinhas três vezes ao mês.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 28 de dezembro de 2012.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

PRESENTES DE NATAL


Geralmente ganhamos presentes de que não gostamos, que se tornam inúteis e ocupam espaço na cozinha, na sala, no corredor, na garagem ou no guarda-roupa. Desde sempre aprendemos que é falta de educação pedi-los, mas, pensando na utilidade e na praticidade com que os incluirei na minha vida, listo abaixo algumas sugestões:


1 – Uma gueixa;
2 – Sabonete Phebo preto tradicional, embalagem amarela;
3 – Esparadrapo e água benta para mãe e filha que inventaram de ser minhas vizinhas;
4 – Empréstimo (obviamente gratuito) de casa em Florianópolis por cinco dias;
5 – Ar-condicionado econômico;
6 – Seis gravatas vermelhas e azuis;
7 – Camisas de mangas compridas;
8 – Calças sociais;
9 – Bermudas;
10 – Cuecas, meias, cinto e lenço;
11 – Canetas de tinta azul;
12 – Uma estante de aço com oito prateleiras distanciando-se vinte e quatro centímetros umas das outras;
13 – Vale cinema, vale teatro e vale locadora de DVD para todos os fins de semana e feriados;
14 – Anuidade do clube;
15 – Geladeira de Coca-Cola;
16 – Piscina no quintal;
17 – Perfumes de criança que grudam no corpo, preferencialmente Johnson & Johnson;
18 – Três sessões de massagem;
19 – Guarda-chuva;
20 – Fone de ouvido que transmita a suavidade da música, sem engrossar ou afinar a voz dos cantores;
21 – Caixas de molho de tomate italiano original;
22 – Passagem de ônibus sem destino;
23 – Oito pacotes de dez resmas de papel A4 de cor amarela clara;
24 – Vinte passagens de ônibus de ida e volta para Londrina;
25 – Vinte diárias de hotéis em Curitiba, Ouro Preto e João Pessoa;
26 – Carro com quilometragem livre durante alguns dias no interior do Rio Grande do Sul;
27 – Gramática de língua portuguesa tão didática quanto os dicionários de inglês;
28 – Seis canetas de cor preta, duas de cor vermelha e dez destaca-texto de tom alaranjado;
29 – Tardes de clima ameno;
30 – Tênis com bons amortecedores e apropriados para caminhadas de duas horas;
31 – Violão eternamente afinado cujas cordas, nas primeiras dedilhadas, desandem a tocar o resto da música;
32 – Meses frios durante as estações calorentas de setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março e parte de abril;
33 – Doze caixas de chocolate com recheio de chocolate e cobertura de chocolate, cada uma das quais pesando aproximadamente cem quilos;
34 – Apartamento, restaurante e cafeteria de nuances originais da Serra Gaúcha;
35 – Perfurador;
36 – Fim de tarde no Parque do Povo, seguido de manga verde em sítio de mestre Vitalino e Dona Lourdes;
37 – “Alla minuta” estralando de novo naquele restaurante onde, quatro noites seguidas, frequentadores mais exigentes e de paladar apurado afirmam que o arroz tem gosto de leite;
38 – Bolsa de mão onde possa guardar, ao mesmo tempo e sem danos, Coca-Cola gelada, chocolate, documentos, livros, cadernos e folhas avulsas de rascunho;
39 – Bicicleta motorizada que polui pouco, economiza muito e não precisa nem de placas nem de recolhimentos de impostos diversos;
40 – Visitar a Cidade Imperial e, em seguida, descer até a ex-capital do império a fim de conversar com escritores que admiro, visitar a Academia Brasileira de Letras, procurar despreocupadamente novas cartas no arquivo de Clóvis Bevilaqua e, sem nenhuma pretensão, compreender sua movimentação intelectual – igualmente literária – nas primeiras quatro décadas do século XX;
41 – Participar, juntamente com os poetas Antônio Lázaro de Almeida Prado e José Benjamim de Lima, de mesa redonda de Literatura na periferia das cidades de médio porte;
42 – Pilotar caiaque ou lancha no rio que separa Presidente Epitácio (SP) de Bataguassu (MS);
43 – Compreensão de quem amo e hostilidade de quem se define adversário;
44 – Elevar Pedrinhas Paulista a cidade símbolo e cartão postal oficial do Velho Oeste Paulista;
45 – Colocar em prática meus planos menos ambiciosos e, ao mesmo tempo, essenciais;
46 – Aprender a falar o necessário;
47 – Continuar me esquivando de embates com fanáticos de todas as espécies;
48 – Descobrir qual o sentido íntimo das coisas;
49 – Viajar;
50 – Agradecer diariamente pela sorte de nascer numa família única e de adquirir outra tão esplêndida, inigualável e insubstituível.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 21 de dezembro de 2012.