sexta-feira, 2 de novembro de 2012

COISAS DE LAURINHA

Anos atrás, Paulo Gracindo e Glória Menezes interpretavam um casal da tradicional sociedade paulistana. Paulo Gracindo já desfilava os cabelos brancos e Glória esbanjava a jovialidade da mulher de quarenta. Diante das ações da esposa, benéficas ou demoníacas, o personagem do grande ator respondia: - Coisas de Laurinha!

A diferença entre homens e mulheres reside na capacidade feminina de interpretações. Os mais filosóficos atribuirão a elas a percepção profunda da busca da felicidade enquanto os literatos reverenciarão o domínio das metáforas. Na disputa entre os filósofos e os literatos, restrinjo-me às surpresas.

Se um cara de quarenta anos é chamado de pançudo, dia seguinte – ou, dependendo da ocasião, na mesma noite – estaciona na frente do espelho, murcha e estufa a barriga, aperta o cinto, afrouxa a calça, prende a respiração, põe a camisa para fora e, em seguida, ajusta-a nas possibilidades desenhadas. Suspira: - Pançudo! Já a mulher não leva desaforo para casa: reage prontamente ao comentário, argumentando que a protuberância não se trata de descuido, mas de excesso de gostosura. Mulheres esqueléticas? Apenas as modelos. Homem gosta de mulher que sabe que se tem onde pegar.

Se o cidadão comete erros de ortografia – troca “s” por “ss” ou “c” ou “ç” – certamente irá envergonhar-se de sua burrice. Já a mulher indiscutivelmente chamará o interlocutor de medíocre: ele não sabe que ela – fluente em alemão, grego, francês e sueco – trocou as letras por pensar na palavra em outro idioma?

Se o homem sai de calça branca desbotada, camisa verde, paletó amarelo, gravata azul, cinto creme, meias roxas, sapatos pretos e chapéu cinza dão-lhe a alcunha de mal vestido. Ficará cabisbaixo, meio triste, decepcionado pelo erro estético. Consultará alguém versado em cores e formas. Anotará as sugestões numa caderneta pesquisada duas ou três vezes ao dia. Se – trajando roupas em todas as cores do arco-íris – a mulher recebe crítica idêntica, tenha convicção, eventual leitor, ela responderá: - Idiota! Não sabe que é o último grito da moda na Europa?

Se o homem dedica-se ao árduo trabalho braçal, joga futebol, afunda na lama, nada na poeira, rola no chão, toma banho de teias de aranha e, ao fim do dia, eventualmente encontra conhecidos, rapidamente será apontado como porco. Humilhado, acatará a sugestão de banho. Já a mulher – ah, sim, a mulher – buscará argumento histórico e lembrará que Napoleão Bonaparte advertia as amantes que ficassem longe das águas três dias antes de encontrá-lo. – Porca, eu? Confrontará a mulher. – Meu cheiro é um perfume natural.

Mas, sem sombra de dúvidas, se existe situação em que a mulher supera o homem é na discussão sexual. Quer sepultar o sorriso do machista? Escancare que ele é ruim de cama, nega fogo, foge da raia. Pouco esforço e grande resultado: o homem atacado se esconderá longas semanas até que – se Deus quiser! – os vizinhos, os colegas de trabalho, os parentes e os amigos esquecerão os vitupérios, as injúrias, os achaques contra sua virilidade. Se vociferarem contra a mulher argumentos semelhantes, não se surpreenda se ela atacar: - Eu? Ruim de cama? Não, bebê. Você é que não dá conta do recado. Ou ainda não percebeu que sou muita areia pro seu caminhãozinho que morre em qualquer subida?

Os homens são limitados: duas ou três palavras de impacto os desmontam. Já as mulheres – sempre as mulheres! – três ou quatro centenas de frases de guerra estimulam a ironia, a ferocidade e as garras lancinantes. Quem vai entender esse complicado, complexo e, ao mesmo tempo, fascinante universo feminino tão previsível e tão cheio de surpresas, de amor e ódio, de delicadeza e de agressão, de sensualidade e de arrogância, de perspectivas e de desespero? Pintura, foto, música, peça ou filme eventualmente poderiam definir o mistério. Poderiam? Desvendaremos esse segredo um dia? Se imaginarmos toda mulher mistura de humildade e de soberba, pensaremos que a mulher é seu próprio segredo e, apenas por isso, simplesmente inexplicável. Como diria o personagem de Paulo Gracindo: - Coisas de Laurinha!


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 2 de novembro de 2012.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

CAINDO NUMA GELADA


Percalços, obstáculos ou impedimentos são encontrados em todos os trajetos, mas se deseja encurtar o caminho aos céus, adote um primo que more em Marília, trabalhe em São Paulo e visite-a de vez em quando sempre trazendo idéias brilhantes cujo testemunho, na capital paulista, centro do desenvolvimento, assegurará bem-estar ao seu cotidiano.

 

O primo discorrerá sobre o trânsito cardíaco, as oportunidades de empregos e negócios milionários respirando nas esquinas, nas mesas de bares, na fila do restaurante de quilo ou no cruzamento da Paulista com a Consolação. Abordará os principais temas de economia, sugerindo mudanças na política cambial e enfatizando a necessidade de equilíbrio do dólar a fim de ajustar as contas externas das empresas. Defenderá as transformações urbanísticas e elogiará a lei da cidade limpa. Criticará arduamente os problemas sociais, os menores abandonados ou os engaiolados em estruturas vis e apontará a solução à violência escolar ou universitária. Por fim, e não menos importante, incentivará a sustentabilidade, olhará seu telhado e sugerirá a adoção de placas de iluminação solar: mais economia, menos gasto de eletricidade, conforto total no ar condicionado ligado vinte e quatro horas.

 

Claro que, mulher inteligente, engajada nos modismos e solícita às orientações do primo – afinal, vive em São Paulo, conhece largamente as estratégias de sustentabilidade que salvarão o planeta – comprará as placas, as telhas e os materiais a fim de modificar a estrutura de sua casa e, consequentemente, dar mais qualidade de vida à família. Não apenas satisfeito em dar os preciosos conselhos, o primo também se disporá a ajudá-la a efetuar as transformações e, no dia seguinte, por volta das seis e meia da manhã, poucos minutos depois de sua mãe sair à caminhada diária com o intuito de atualizar as notícias – mulher jamais fofoca, apenas atualiza as notícias, ele baterá à sua porta, arreganhará os dentes, apontará a escada improvisada em cima do fuscão bala:

 

- E aí, prima? Pronta?

 

Você escovará os dentes, comerá pão, geléia, ovos mexidos, presunto, queijo e duas fatias de mamão, voltará a escovar os dentes, vestirá calças jeans de oito bolsos a fim de armazenar as ferramentas ao trabalho, ajudará o primo a retirar a escada do fuscão bala, mas antes de armá-la, lembrar-se-á do freezer problemático que, por uma válvula solta, encheu-se de gelo. Com a ajuda do primo – sempre sorridente e sempre da capital – empurrará o freezer até o quintal onde, debaixo do sol quente fulminante, os cachorros brincarão latindo com a agitação da manhã de sexta-feira.

 

Seu primo então se comprometerá a segurar a escada e a zelar pelo seu bem-estar. Dando-lhe orientações de instalação do teto solar, aconselhará o uso de mangueira de jato forte com o objetivo de limpar as telhas antes de qualquer mudança e, sem perder tempo, você subirá a escada enganchando, num dos bolsos, a ponta do janto de água. Em cima do telhado, olhará em volta e admirará Marília Bela, batizada pelo fundador da cidade em homenagem à Marília de Dirceu. Do outro lado da rua, crianças jogarão futebol utilizando quatro tijolos como traves.

 

Sua vizinha do lado esquerdo, observando sua intrepidez, perguntará de sua mãe e você, sempre solícita e delicada, dará uma volta de cento e oitenta graus a fim de responder-lhe. Mudança de posição, acionamento da alavanca, a água esguichará implacavelmente. Desequilibrada, ainda terá sorte de cair sobre o primo que, percebendo o desastre, pensou em correr para dentro de casa, mas o pensamento não correspondeu à ação.

 

A vizinha que testemunhara a queda e as crianças que ouviram os gritos chamarão os bombeiros, a polícia e, de quebra, a imprensa. Os bombeiros tentarão entrar no quintal para os primeiros socorros, mas os cachorros, apesar de pequenos, são ferozes.

 

Voltando da caminhada, sua mãe se exasperará com a multidão acabando com as orquídeas do jardim e, diante dos fatos, fixará seus olhos:

 

- Da próxima vez que ele – apontará para o primo – aparecer com a idéia de instalar aquecedor solar no teto, arrebente-o na cabeça dele!

 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 26 de outubro de 2012.