sexta-feira, 29 de julho de 2011

PALIATIVO

Entrou na banca da rodoviária.

- Pois é, se continuar desse jeito, a rua vai piorar. Cheia de buracos, de lama, de esgoto a céu aberto, de ratos e baratas invadindo as casas!

- Pelo menos um paliativo para a situação...

Comprou jornal de sábado, palavras cruzadas e pacote de figurinhas do primo. Quando o pai questionou o andamento da construção da casa tendo em vista o casamento que se aproximava, o rapaz, impostando a voz, mão firme no copo de suco de maracujá:

- Vou arranjar um método paliativo!

Depois do jogo de futebol das cinco e meia, os vinte amigos escolhiam entre a Churrascaria do Gaúcho e o Fogão Mineiro. Consultado:

- Acho que podemos conseguir resultado paliativo!

Um dos atletas, que adorava estudar etimologia, abriu um largo sorriso, mas se conteve para não embaraçar o companheiro de partida. Quando entraram na Churrascaria do Gaúcho, o garçom dispôs as alternativas: rodízio ou opções conjugadas?

- Que tal um paliativo?

Provavelmente a parte mais interessante de aplicação da nova palavra aconteceu no fim de semana durante a comemoração do aniversário da sogra numa chácara alugada. Ajudou a descarregar as cadeiras e as mesas, buscadas numa distribuidora de bebidas, arrumou um lugar para a churrasqueira, depositou as bebidas nos dois congeladores que trouxera e nos dois disponíveis na chácara, limpou os banheiros e, em último grau de devoção à sogra, ajustou as redes de vôlei e das traves nos campos que ficavam a cinqüenta metros das festividades.

Começaram a ocupar o grande estacionamento por volta do meio-dia e antes da uma da tarde já não se encontravam mesas disponíveis. O sogro passava entre os parentes, apertando as mãos de uns, abraçando outros, colocando as crianças no colo e fazendo malabarismos para os mais idosos. Elogiava o genro, organizara a festa. Que bom gosto, que trabalho, que dedicação à filha e, especialmente, à família. Grande casamento aquele. Todos convidados desde já.

A conversa sobre casamento – e casamentos de maneira geral – tomou conta dos amigos e parentes do sogro na piscina, nos campos de vôlei e de futebol, em torno da churrasqueira ou nas árvores frutíferas. O sogro confirmou o interesse do genro num casamento na melhor igreja da cidade, festa para mais de quinhentos convidados, alugaria alguns apartamentos nos hotéis no entorno dos lugares das comemorações para convidados especiais e alguns carros de última geração para transportar três ou quatro casais que vinham de São Paulo para prestigiar o enlace.

Tudo ia bem até que um dos convidados, de saco cheio do casamento de quinze anos, oito meses e sete dias – sabia detalhadamente do tempo em que afundara naquela prisão, referindo-se à união com a abençoada esposa – perguntou se o noivo queria casar-se por vontade própria ou por pressão dos parentes da noiva. O sogro argumentou de todas as maneiras, mas teve de chamar o futuro genro para convencer amigos e parentes de que realmente amava sua filha.

O genro chegou à roda de amigos perto da churrasqueira. Jogou duas ou três dúzias de palavras sem lógica, lembrou de alguns fatos engraçados e coletivamente conhecidos, falou do trabalho e das perspectivas de abrir um negócio próprio com dinheiro emprestado de um banco do estado. A conversa ia bem até que, sem mais rodeios, o sogro disparou:

- Meus amigos aqui – mais aqueles três primos e dois sobrinhos – estavam falando que casamento é uma coisa complicada. Há pessoas, disse sem apontar o arrependido companheiro, que se casaram e hoje sofrem de um jeito que você nem imagina. Então, minha pergunta é simples. Gostaria que você respondesse. Uma pergunta apenas para demonstrar aos meus amigos seu caráter e sua vontade de casar com minha filha e integrar essa que é uma das mais famosas famílias de Presidente Prudente, que é a minha família. Você acha que uma mulher como minha filha, estudada, trabalhadora, correta, todos os predicados morais e éticos, é ou não é um excelente partido para um casamento de verdade, duradouro, sério?

- É, disse o genro, um paliativo para qualquer homem!


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 29 de julho de 2011.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

SEI AMAR?

Viajava para Paraguaçu Paulista na antevéspera do dia dos namorados quando o ônibus parou na Roseta, distrito da cidade. Viagens em ônibus circular não são nem mais nem menos cansativas, nem mais nem menos importantes. A diferença é o tempo. As viagens em ônibus circular geralmente são curtas, ligando uma cidade à outra, Presidente Prudente a Martinópolis, Inúbia Paulista a Adamantina, Assis a Maracaí ou Londrina a Sertanópolis.

Antes que a memória me traia, acrescento que o tempo não é a única diferença: as pessoas que viajam em ônibus circular são peculiares em cada trecho. O passageiro que vai de Prudente a Álvares Machado não é o mesmo que vai de Maringá a Florestópolis, nem semelhante ao que sai de Porto Alegre com destino a Gramado ou deixa Florianópolis com vontade de visitar Blumenau.

Rubem Alves, em mais de uma de suas crônicas, lembra o gosto pelo confronto facial. Entra no ônibus, no metrô, no avião, no navio e olha as faces, brincando nas tentativas de descobrir suas personalidades, seus gostos, suas histórias. Eu nunca presto atenção nas pessoas. Escolho um banco, me sento, pego um livro ou vislumbro as agregações simbólicas às paisagens naturais, permitindo-me o devaneio inexorável e confuso. Ora estou numa praia bebendo água de coco, ora estou numa sala de aula debatendo algum assunto literário, filosófico ou sociológico, ora estou viajando para algum país que tenho vontade de conhecer (e, sempre lembro a mim mesmo, não são poucos os países em que gostaria de permanecer umas longuíssimas semanas), ora estou fechado entre quatro paredes silenciosas...

Na antevéspera de dia dos namorados, minhas atenções se concentraram num casal da Roseta. O frio de mais ou menos catorze graus, cuja sensação térmica o reduzia a dez graus em função da chuva fina e constante, convidava qualquer pessoa de bom senso, sem obrigações, a se meter embaixo das cobertas, a assistir a algum programa televisivo ou filme, comer pipoca ou lasanha, beber chá, café ou chocolate quente.

Os passageiros que desembarcaram na Roseta saíam correndo em disparada para suas casas, pois ninguém esperava água e, consequentemente, ninguém levara guarda-chuva. O ônibus ainda parado esperava um homem, provavelmente setenta e cinco anos, passos lentos e movimentos comprometidos, levantar-se, mover-se e pegar as duas bolsas de viagem socadas atrás do último banco.

Quando desatrelou sua bagagem, uma mulher de poucos dentes parou à porta de saída, estacionou seu carro de mão. O homem pegou uma bolsa de viagem (verde, suja, zíperes estourados e compartimentos fechados com barbantes ou cordas), depositou no primeiro degrau. A mulher então puxou a bolsa para o segundo degrau, empenhou suas forças e a transportou para o carro de mão que, agüentando a pancada do peso, balançou de um lado a outro e ameaçou cair.

Em seguida, o homem pegou a segunda bolsa – tão mal cuidada quanto a primeira – colocou-a nas mãos da mulher que, com esforço semelhante ao anterior, ajeitou no carrinho de mão. A chuva aumentara sua força e já caía torrencialmente. A mulher ainda acomodou como pode as bagagens enquanto o homem voltava ao banco para recolher blusa de frio, guarda-chuva, chapéu e maleta velha. Desceu a escada, segurando-se ao balaústre. Em terra firme, equilibrado no chão encharcado, homem e mulher sorriram e, embaixo de chuva, deram um beijo. O ônibus partiu, retomando seu trajeto a fim de cumprir horários, de espalhar pessoas, de alavancar a vida, de criar idéias, de motivar o espírito, de realizar sonhos, de desfazer estragos, de gerar riqueza e empregos...

Quando cheguei a Paraguaçu Paulista, a imagem do casal invadiu-me os pensamentos. Esqueceria dele o quanto antes, entretanto a figura dos dois sorrindo e se beijando embaixo de uma chuva forte impregnou-me os sentidos a tal ponto de concordar parcialmente com Rubem Alves. As faces das pessoas, em muitas ocasiões, nos trazem grande felicidade. Especialmente se essa felicidade se mostra recheada de ações repletas de amor desinteressado.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 22 de julho de 2011.