sábado, 26 de fevereiro de 2011

RÉGUA E COMPASSO

Os ramos da ciência enfrentam uma série de desafios para se inserir nas bibliografias acadêmicas, nas listas de concursos ou no rol de debates de intelectuais. Acusações e defesas, elogios e críticas, afetos e inimigos vão se agrupando ao mesmo tempo em que obras vão se agüentando no caminho da leitura. Os autores se esforçam para se manter na mídia. Se, na Literatura, a situação é complexa, já conseguiram imaginar as peripécias nas demais disciplinas do saber?



Por essa razão, causa-nos grande satisfação folhear “Brasil: de Getúlio a Castello”, do brasilianista Thomas Skidmore que, no relançamento pela Companhia das Letras, comemora quarenta anos de sucesso, reconhecimento e discussões. O historiador norte-americano causa frisson entre seus colegas brasileiros que, em alguns casos, acusam-no de acessos privilegiados a fontes tanto do período varguista quanto do ditatorial para desenhar um retrato econômico, social e cultural de um movimento político ainda em vigor na época.



Em uma de suas numerosas entrevistas, Skidmore respondeu, ao repórter insistente, que pouco sabia do Brasil. Escolhera o português porque as aulas de espanhol, idioma de sua preferência, começavam cedo demais e se tornavam incompatíveis com seus hábitos de acordar tarde durante as férias.



O distanciamento necessário na análise de documentos aliado ao desinteresse inicial pela história brasileira acabam trazendo um resultado proveitoso aos leitores do livro que, mesmo escrito no calor das horas das tormentas, como no caso em que estuda especificamente o regime militar, produz frutos híbridos. Sem demonizar inteiramente as forças armadas e evitando criar o ufanismo aos esquerdistas, Skidmore recorta trechos utilizando, na reconstrução dos fatos, as medidas da régua e do compasso. Régua para medir os tamanhos dos recortes e compasso para escolher milimetricamente os pontos a serem abordados.



“Brasil: de Getúlio a Castello” prende a atenção não apenas pela abordagem transmitida em linguagem fluente, mas principalmente pela tradução de Berilo Vargas e pela diagramação que promove leitura mais envolvente e menos cansativa, mesmo quando os dados sociais, econômicos e políticos são descritos densamente.



Na introdução, Skidmore relata os motivos que o levaram à deposição do então presidente João Goulart, mas a pesquisa sobre o fato – atualmente também abordado de maneira brilhante por Carlos Fico, historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – exigiria mais esforços do que supunha inicialmente. O brasilianista reviraria sistematicamente arquivos e dados que explicassem a ascensão, manutenção e declínio de Vargas (tanto nos quinze anos em que exerce ininterruptamente o poder quanto na primeira metade da década de 1950, quando retoma a presidência republicana pelo voto popular), passando pelo governo Juscelino – em que analisa os problemas da inflação e as discussões em torno dos embates do desenvolvimento e da atualização do conceito de nacionalismo – e observando os jogos de poder que facilitaram a eleição e a renúncia de Jânio Quadros.



Os tópicos sobre o período Goulart ressaltam os transtornos decorrentes da inflação – problema que atravessa décadas e impõe desconfortos aos governantes que não conseguem controlá-la, as reformas de base, entre elas a agrária, o colapso financeiro. Um possível comportamento ambíguo e pouco objetivo de Jango culminaria no questionamento sobre o evento de 31 de março de 1964: golpe (como afirmavam os esquerdistas) ou revolução (como defendiam os militares)?



A edição traz um interessante apêndice sobre a participação dos Estados Unidos na queda do presidente Goulart. Como retomaria Carlos Fico anos mais tarde, o papel dos Estados Unidos na deposição do presidente brasileiro constituiria uma ação da sociedade, do governo ou do estado norte-americano?



Em síntese, “Brasil: de Getúlio a Castello” é um clássico indispensável nas prateleiras de quem deseja compreender a história do século XX e ensaiar uma compreensão das características das ditaduras na América Latina. Uma análise primordial à base de régua e compasso.







***






Thomas Skidmore – Companhia das Letras – 472 p. – R$ 56,00



*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 25 de fevereiro de 2011.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

QUASE GERENTE


Nos últimos onze anos Menezes trabalhava persistentemente no Hotel do Velho Oeste. Chegava antes dos demais funcionários, adiantava os expedientes, verificava as contas a serem pagas na abertura dos bancos, conferia os cálculos, arrumava maneiras de cortar despesas e, embora todos os funcionários do departamento administrativo largassem suas funções pontualmente às 17h55, permanecia na revisão de documentos até às 21h.






Aceitava o trabalho sem reconhecimento, não reclamava dos atrasos salariais, nem manifestava suas insatisfações com os critérios fajutos de promoção. Recordava do caso de uma estagiária. Três meses, alguns copos de champanhe barato, assessora da gerência geral recebendo cinco vezes mais do que ele.






Nos últimos meses, estabelecera meta ambiciosa: o cargo de quase-gerente. O gerente gastava os dias passeando pelo imenso complexo da rede hoteleira, cumprimentando hóspedes, bebendo com comerciantes e empresários das cidades vizinhas e lançando olho gordo para as mulheres alheias. O quase-gerente respondia pelos problemas, descascava os abacaxis e, uma vez, saíra de casa na ceia de natal para desentupir um vaso sanitário da suíte presidencial.






Para atingir a meta, estudou com afinco os movimentos do prédio, analisou criteriosamente as contas, compreendeu os mecanismos de entrada e de saída de dinheiro e, para definitivamente quebrar o ciclo sazonal, elaborou um projeto. Os hotéis, as pousadas, os albergues da juventude, as pensões e outras espécies de alojamento sofrem com os períodos sazonais. De dezembro a meados de março o hotel lotava. De abril a junho vivia às moscas para, em julho, retornar às boas e, mais uma vez, de agosto a novembro, com exceção dos feriados, o prejuízo se alastrar.






Se conseguisse aumentar o número de hóspedes nos meses em que geralmente não aparecia ninguém? Esforço, notado; genialidade, reconhecida. Telefonou para agências de viagens, trocou idéia com professores do último ano de ensino médio, convenceu associações científicas da estrutura urbana. A namorada acompanhava o desempenho dele que entrou na sala do gerente geral disposto a brigar pela vaga de quase-gerente. Prova de sua competência registrada nas reservas de setenta quartos lotados quando, no ano passado, apenas doze mantinham clientes.






O gerente geral impressionou-se, conferiu os dados, observou com empolgação o depósito de metade dos valores totais das reservas, parabenizou-o efusivamente. Faria algumas ligações. Menezes sentou-se. O coração acelerado voltou ao ritmo normal, o suor escorreu pelas têmporas, a noiva encostou na mesa. A saia curta destacava pernas grossas, bumbum arredondado em contínuas sessões de treinamento na academia, cabelos tratados semanalmente. A cara da noiva? Um asfalto repleto de crateras. Mas, o que importavam faces danificadas se o resto da lataria estava razoável?






- Conversei com o... – O gerente emudeceu, os olhos correram o corpo da parceira de Menezes que, ansioso e nervoso sobre a promoção, sequer desconfiou da atenção redobrada.






- Conversou com quem? Inquiriu o funcionário.






O gerente dar-lhe-ia a grande notícia de que o cargo era seu, mas voltando a olhar disfarçadamente a morena, informou que aguardava uma resposta superior. Afinal, como deveria saber, o cargo de quase-gerente exigia uma pessoa capacitada. Convidou Menezes e a namorada à sua sala, entretanto uma idéia assaltou-lhe no saguão:






- Você conseguiu um grande feito, mas acredito que se conseguisse mais trinta vagas, totalizando cem apartamentos lotados, os donos do hotel se surpreenderiam e o contratariam imediatamente. Já disse que você preenchera setenta apartamentos. Trinta novos clientes afastariam qualquer dúvida sobre sua determinação e compromisso. Pegue a prancheta, algumas fichas e duas canetas. Saia na rua! Convença alguns turistas a voltarem no próximo ano e se hospedarem conosco. Sei que você consegue!






Menezes agarrou a prancheta, os formulários e as canetas. Saiu repetindo: - Vou conseguir! Vou conseguir! Vou conseguir!






O gerente convidou a namorada do funcionário para conhecer a adega. Gostava de vinho do Porto ou preferia os do Rio Grande do Sul? Duas voltas na chave da porta.










*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 18 de fevereiro de 2011.