O esforço de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo de selecionar contos para compor a “Antologia de la Literatura fantástica”, em meados de 1960, foi bem recebido, porém se perdeu no tempo e no espaço.
Da eclética antologia constam nomes consagrados como Casares, Borges, Ocampo, Lewis Carroll, Julio Cortázar, James Joyce, Franz Kafka, Maupassant, Poe, Rabelais, Sinclair, H. G. Wells, entre outros grandes escritores. Parece-me que os organizadores limitaram-se a escolher predominantemente obras da Literatura de língua espanhola, inglesa e francesa, esquecendo-se das de língua portuguesa.
Republicada regularmente, essa antologia (cujo exemplar que detenho atinge a vigésima primeira edição, 2008) insistiu em se manter alheia ao desenvolvimento da Literatura fantástica brasileira. Por essa razão, a obra continuou incompleta por excluir o maior nome do gênero entre nós e, indubitavelmente, um dos mais importantes no mundo: Josué Guimarães.
Com carreira tardia, assim como Saramago iniciada após os quarenta anos, Josué Guimarães consagrou-se escritor quando publicara “Enquanto a noite não chega” em 1978. Alguns poetas se eternizam apenas por parte de sua obra ou por um poema. Josué Guimarães já percorreu considerável trajetória literária, porém, se pudéssemos apontar uma obra fundamental, a novela que narra o cotidiano de Dom Eleutério e dona Conceição numa cidade decadente da qual, com exceção do coveiro, são seus únicos moradores seria escolhida com destaques e louvores.
Discute-se o caminho da morte desde o princípio pelo deserto urbano e pelas ruínas arquitetônicas, pelo desgaste de utensílios (como a falta de barbeador de Dom Eleutério) ou pelo fim da comida (economizada ao extremo por Dona Conceição que sabe que os alimentos não serão repostos), pela fantasia da rememoração mesclada aos acontecimentos contemporâneos, numa evidente ausência de discernimento entre devaneio salutar e delírio nostálgico e patológico.
A mistura entre tempos, lugares, pessoas e episódios permeia todo o enredo que discute secundariamente posicionamentos sobre guerras, escolhas e família, pondo em relevo a condição humana senil na perspectiva do abandono e da efemeridade, dos costumes e das recordações, ressaltando a importância da solidariedade e da compaixão como moedas de sobrevivência.
Um espaço como esse seria curto para tratar das questões intrínsecas e explícitas de um grande livro – embora considerado uma novela que dificilmente ultrapassa as noventa páginas – e de mostrar a genialidade brasileira no Rio Grande do Sul, contudo é mais do que suficiente para mandar um recado a Borges: se as causas perdidas só podem interessar a um cavalheiro, podemos escolher as armas do duelo?
*Publicado originalmente na Série Especial Dez Escritores Contemporâneos do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 30 de outubro de 2009.
sábado, 31 de outubro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
ALUNO MODELO
Orgulhosa e falante, a mãe terminou de despejar café nas xícaras do casal que a visitava:
- Meu filho! Vem aqui.
Mostraria aos primos – na verdade, ela, a prima, e ele, marido da prima – que o filho, aluno modelo do primeiro semestre letivo de famosa escola particular, estudava a valer. Interrompera os estudos na terceira série do então curso primário, a mãe queria o filho desfilando de anel grande e vistoso de doutor (poderia ser de médico, de engenheiro ou de entendido da computação, menos de advogado).
- Ele é uma beleza, afirmava, sorrindo orgulhosamente. Vai primo, pode fazer qualquer pergunta que ele responde. Responde na lata. Nem precisa estudar antes.
O marido da prima constrangeu-se pela insistência da mulher que acabava de conhecer, porém por cortesia, perguntou de quais matérias mais gostava. Preferia geografia e Literatura. Embora simpatizasse com física, escrevera alguns poemas na adolescência e lia regularmente romances e crônicas. Viajara a alguns estados e aos países vizinhos de modo que, por conhecimento menos teórico do que prático, iniciou a sabatina:
- Qual a capital do Brasil?
- Brasília, respondeu de pronto o moleque.
- Paraíba?
- João Pessoa.
- Acre?
- Rio Branco.
- Maranhão?
- São Luis.
O marido da prima se empolgava, pensou em questões sobre eras geológicas e camadas terrestres, marítimas e aéreas, mas aprofundou-se nas capitais dos países latino-americanos.
- Qual a capital da Argentina? Disparou, sorridente.
- Caracas.
- Uruguai?
- Surinama.
- Chile?
- Ouro Preto.
A mãe abraçava-o, empurrando-lhe duas coxinhas goela abaixo a título de prêmio pelas respostas rascantes. O menino poderia estar nervoso a ponto de trocar nomes de capitais e confundir uma cidade brasileira com a capital chilena. Mudou para Literatura. Perguntas simples, respostas simples.
- Quem escreveu “A luneta mágica”?
- Machado de Assis.
- “Grande Sertão: veredas”?
- José Lins do Rego.
- “Eu e outras poesias”?
- Guilhermino Cesar.
- “Concerto Campestre” e “O pintor de retratos”?
- Castro Alves.
Voltou a premiá-lo com duas coxinhas e o liberou para brincar na rua, mas antes de atravessar a cozinha, o marido da prima quis indagar novamente.
- Em sua opinião, quem é o maior poeta da Literatura brasileira? Entende? Da Literatura brasileira!
Aquiesceu afirmativamente. Aluno modelo do primeiro semestre letivo de uma das mais tradicionais escolas particulares. Responderia facilmente. Voltando o corpo para dentro de casa:
- Fernando Pessoa.
- Eu não disse que ele era um gênio? Um gênio precoce.
Ao fim do café o marido da prima fez questão de tomar nota do nome e do endereço da escola. Esquivar-se-ia das proximidades do educandário para evitar o contágio de inteligência tão grande.
*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis –SP) de 29 de outubro de 2009.
- Meu filho! Vem aqui.
Mostraria aos primos – na verdade, ela, a prima, e ele, marido da prima – que o filho, aluno modelo do primeiro semestre letivo de famosa escola particular, estudava a valer. Interrompera os estudos na terceira série do então curso primário, a mãe queria o filho desfilando de anel grande e vistoso de doutor (poderia ser de médico, de engenheiro ou de entendido da computação, menos de advogado).
- Ele é uma beleza, afirmava, sorrindo orgulhosamente. Vai primo, pode fazer qualquer pergunta que ele responde. Responde na lata. Nem precisa estudar antes.
O marido da prima constrangeu-se pela insistência da mulher que acabava de conhecer, porém por cortesia, perguntou de quais matérias mais gostava. Preferia geografia e Literatura. Embora simpatizasse com física, escrevera alguns poemas na adolescência e lia regularmente romances e crônicas. Viajara a alguns estados e aos países vizinhos de modo que, por conhecimento menos teórico do que prático, iniciou a sabatina:
- Qual a capital do Brasil?
- Brasília, respondeu de pronto o moleque.
- Paraíba?
- João Pessoa.
- Acre?
- Rio Branco.
- Maranhão?
- São Luis.
O marido da prima se empolgava, pensou em questões sobre eras geológicas e camadas terrestres, marítimas e aéreas, mas aprofundou-se nas capitais dos países latino-americanos.
- Qual a capital da Argentina? Disparou, sorridente.
- Caracas.
- Uruguai?
- Surinama.
- Chile?
- Ouro Preto.
A mãe abraçava-o, empurrando-lhe duas coxinhas goela abaixo a título de prêmio pelas respostas rascantes. O menino poderia estar nervoso a ponto de trocar nomes de capitais e confundir uma cidade brasileira com a capital chilena. Mudou para Literatura. Perguntas simples, respostas simples.
- Quem escreveu “A luneta mágica”?
- Machado de Assis.
- “Grande Sertão: veredas”?
- José Lins do Rego.
- “Eu e outras poesias”?
- Guilhermino Cesar.
- “Concerto Campestre” e “O pintor de retratos”?
- Castro Alves.
Voltou a premiá-lo com duas coxinhas e o liberou para brincar na rua, mas antes de atravessar a cozinha, o marido da prima quis indagar novamente.
- Em sua opinião, quem é o maior poeta da Literatura brasileira? Entende? Da Literatura brasileira!
Aquiesceu afirmativamente. Aluno modelo do primeiro semestre letivo de uma das mais tradicionais escolas particulares. Responderia facilmente. Voltando o corpo para dentro de casa:
- Fernando Pessoa.
- Eu não disse que ele era um gênio? Um gênio precoce.
Ao fim do café o marido da prima fez questão de tomar nota do nome e do endereço da escola. Esquivar-se-ia das proximidades do educandário para evitar o contágio de inteligência tão grande.
*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis –SP) de 29 de outubro de 2009.
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