sexta-feira, 16 de novembro de 2012

SEJA SEMPRE SINCERO


Os “expertos” orientadores de talentos dão dicas fabulosas que, tenho quase certeza, nem Deus sabe de onde as tiraram. Durante viagem de ônibus entre Londrina e Maringá um rapaz de aparentes vinte anos, segundo período ou termo de administração, contabilidade, economia ou qualquer outra faculdade às quais se dirigem os alunos na esperança de enriquecer, desabafava com a amiga.

 

- Olhe aqui! Batia o dedo indicador num quadro de resumo de revista de negócios lida pelo menos trinta e duas vezes antes de entrar na sala do entrevistador. – Eu não disse? Veja! Escrito em letras grandes: “Seja sincero. Seu interlocutor saberá recompensar sua sinceridade!”

 

A mulher que o acompanhava pôs os óculos de fundo de garrafa e aros grossos, deslizou os olhos à capa, voltou a conferir a informação resumida, entregou o periódico ao proprietário salientando que, como frisava, a revista indicava comportamento baseado nas relações de sinceridade, de franqueza, de verdade, de objetividade e de transparência.

 

- Não fui sincero? Indagou, jogando a revista na bolsa, ajustando os colarinhos, fechando os botões das mangas compridas, conferindo o reflexo na janela. – Fui sincero ao extremo. Assim que entrei na sala, o entrevistador perguntou-me como estava. Fui sincero: dor de cabeça, ônibus lotado, insônia, três ou quatro bolachinhas na barriga. Em seguida, pediu-me que sentasse e perguntou que experiência tinha no ramo de alimentos. Que resposta poderia dar?

 

- Que resposta você deu?

 

- Disse que jamais, repito, jamais tivera experiência e acrescentei, ainda sendo bem sincero, que faço faculdade para trabalhar no mercado financeiro, bolsa de valores, corretoras, bancos internacionais, mas que, em razão da vida complicada, da falta de inglês, de francês, de espanhol, de compreensão global tanto econômica quanto política, sobrara-me apenas a alternativa de alimentos à qual me agarrava naquele instante, como uma tábua de salvação aparecendo depois de tormenta tenebrosa no mar agitado do desemprego e das falsas esperanças.

 

- Qual a reação do entrevistador?

 

- Ele não disse nada. Simplesmente baixou a cabeça, anotou itens em minha ficha, questionando, depois de alguns segundos, se eu não falava nenhum idioma e por que, já que não entendia nada do ramo de alimentos, tentava vaga justamente numa indústria do ramo.

 

- O que respondeu?

 

- Fui sincero: reforcei minha ignorância em idiomas e, saindo pela tangente, como sempre faz um bom homem de negócios, assegurei que, em nenhum momento, abriria mão de contratar tradutores simultâneos caso necessitasse viajar ao exterior. De maneira muito educada, reclamei da temperatura da sala. Condicionador de ar com defeito? Por que não abrir as cortinas, escancarar as janelas? Enfatizei meu interesse nos mercados de ações e no mundo bancário. Afinal, tinha nascido para isso. Entretanto, já que meus idiomas e meus conhecimentos eram limitados, apenas aquela empresa – que nem era tão grande assim – dera-me oportunidade de mostrar minha competência de múltiplos saberes.

 

- E o entrevistador? O que disse?

 

- Ele não disse nada. Baixou a cabeça, anotou alguns pontos em minha ficha. Daí, sem mais nem menos, perguntou qual dos produtos fabricados por eles freqüentavam minha mesa. Sinceridade total: nenhum!

 

Nesse instante, eu não me agüentei. Desatei a rir com tamanho estrondo que todo o ônibus concentrou-se em meu escândalo. Justificativa: lera ótima piada.

 

O ônibus parou numa dessas cidades intermediárias do trecho de modo que, entra e sai de passageiros, perdi parte da conversa dos dois amigos atrás de mim e, por mais que esticasse as orelhas e disfarçasse a curiosidade, nada mais ouvi. Ao fim da linha, quando o veículo dava as primeiras voltas para entrar na rodoviária da Cidade Canção, o rapaz – que adoraria trabalhar no mercado de ações e ocupar a diretoria de bancos – explodiu:

 

- Mas, me diz, resmungou para a amiga, quem vai comer aquela manteiga com gosto de banha de porco e engolir iogurte que mais parece resto de leite estragado?

 

 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de novembro de 2012.

 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA


Sempre tive problemas nas aulas de Ciências, de Educação Física e de Educação Artística.

 

Quando a professora de Ciências – tive muitas, desde as mais atraentes até às menos amadas – entrava na sala segurando cadernos, livros, bolsas, cadernetas de chamada, papéis, giz e apagador, sabia que minha vida se transformaria em inferno nos quarenta e cinco ou noventa minutos em que – estratégias habituais de transmissão de conhecimento – desenharia esquemas complexos da digestão dos peixes. Embora morasse numa cidade praticamente praieira, não entendia – e continuo sem entender – os motivos que me levavam ao sistema digestivo do animal que sequer acompanhava-me nas refeições. Saí do ensino fundamental, entrei no médio, concluí o superior sem assimilar as atividades piscianas, bactérias, moluscos, reino monera e mariposas mortas em decorrência da poluição na Inglaterra.

 

Outra matéria que me tirava a paciência: Educação Física. Busquei artifícios convincentes para fugir das aulas, entretanto obrigavam-me a entrar na fila rumo à quadra de esportes de onde voltava cansado e entediado uma hora e meia depois de assistir aos jogos dos meninos e de testemunhar as confissões dos primeiros prazeres labiais de minhas colegas. Como em todas as escolas – públicas e particulares – os tempos de treinos em busca de resultados satisfatórios transformavam-se em mera recreação semanal. Nada aprendi das regras dos esportes. De modo que, nas copas do mundo, “tiro de meta”, “escanteio” ou “impedimento” são termos desconhecidos.

 

Ciências e Educação Física constituíam matérias nas quais ainda poderia aplicar métodos retóricos para driblar os professores. Aplicaria idênticos métodos em Educação Artística se, no fim do primeiro bimestre, a professora não tivesse imposto calendário por meio qual exigisse, a cada sexta-feira, cópia simétrica proporcional das bandeiras do Distrito Federal e dos vinte e seis estados seguidos, de perto, das dos países das Américas, alertando-nos sobre as semelhanças entre as cores originais e as que pretendíamos transpor às obras de arte de nossa lavra.

 

Régua e compasso: dois monstros que me metiam medo. Vez por outra desenhava casas em papéis de rascunho utilizando, para tanto, a ajuda de réguas de trinta e de vinte centímetros. Por mais que me esforçasse e contasse exaustivamente os centímetros, os quartos, os banheiros, as salas, as cozinhas, os escritórios e as bibliotecas nunca saíam do tamanho desejado. Se, régua em punho e no sossego de minha casa, meu fracasso mostrava-se estrondoso, o que dizer das tentativas sob pressão?

 

Enquanto meus amigos pulavam de alegria com as notas variando entre nove e dez, eu, envergonhado e aflito, dobrava meu caderno antes que meus seis e meio, seis, cinco ou quatro pudessem ser vistos de maneira mais clara pelos colegas. Conforme previra desde o início das atividades de pintura, cheguei ao fim do segundo e do terceiro bimestres com notas vermelhas e consciente de que entraria na prova final. Já imaginava as desculpas a fim de escapar das cacetadas paternas que, sem dúvida, não engoliriam as explicações de dificuldades.

 

Esforcei-me o quanto pude. Alguns colegas chegaram a ajudar-me, mas minhas bandeiras se distanciavam do ideal mínimo aceitável. Quase sete meses após o início da jornada, o coração disparava ao fim das sextas-feiras quando minha condenação parecia acertada. No último dia de aula, a professora de Educação Artística entregou-nos papel em branco com a finalidade de projetarmos desenhos livres. Uns iniciaram a configuração de casas simples; outros, de paisagens cheias de nuvens brancas, céu azul, árvores verdes, frutas variadas, animais diversos. Entre o desespero pela penalização paterna e a convicção de derrota pela incapacidade de, à semelhança dos outros alunos, desenhar casas ou campos, peguei quatro ou cinco vidrinhos de tinta guache, embaralhei-os integralmente na página em branco – mas respeitando as quatro linhas de limites – e, meio corajoso, meio despeitado, integralmente desesperado, entreguei o trabalho à professora que, diferentemente do que imaginara, abriu um sorriso: - Finalmente vejo uma obra de arte!

 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 9 de novembro de 2012.