sexta-feira, 8 de junho de 2012

CARTA PARA APAIXONADA DOENTE OU CARENTE INTEGRAL

Perdoei mais de vinte vezes e inúmeras outras compreendi o nervosismo, a angústia, a energia das palavras. Uma hora a paciência acaba, o humor desaparece e descobre-se que, desde o início, a paixão não passa de carência construída na infantilidade.


O relacionamento entre as pessoas não é eterno, entretanto pode ser duradouro. A permanência depende estritamente da maturidade de constatar que o cotidiano não se constrói em viagens à Europa, na aquisição de automóveis de última linha, de acessórios inúteis da moda, de fotos tiradas com pessoas com quem raramente nos relacionamos ou por quem jamais tivemos admiração, de se achar criada à perfeição divina, mas de refletir sobre ovos.


Imagine-se carregando cem ovos – nas mãos e nos braços – de sua casa até a rodoviária, numa noite escura, sem luz da lua e sem energia elétrica. Quantos ovos chegariam à rodoviária? A paixão é a arte de carregar ovos. Cada ovo que cai não volta: a falta de dizer “obrigado”, de se desculpar, de compreender e se sentir feliz por ser adorada por alguém que não oferece nem viagens à Europa, nem carros, nem casas, nem futilidades da vida social, contudo pode enumerar milhares de qualidades e belezas que existem nos olhos apaixonados.


Se você não se sente adorada e desejada, seja inteligente: largue quem a maltrata ou a despreza. Procure nova paixão! À nova paixão, continue com o comportamento egoísta cujas forças concentram-se mais em magoar e ofender do que lançar palavras e gestos de carinho. O abraço afetuoso, o beijo puramente reconfortante – sem intenções eróticas – e o olhar amoroso de solidariedade, comunhão ou incentivo são mais eficazes do que falar ininterruptamente, considerando-se o centro da terra e ouvindo apenas suas palavras.


Apontar a falta de educação, de civilidade, de cortesia, de elegância e de delicadeza não é maneira de atacar, mas opção de largar hábitos desnecessários e melhorar as relações. Educação é muito mais do que cursar faculdades, construir carreira docente ou escrever livros. Educação não é nada mais nada menos do que reconhecer o esforço do outro, de admirar o desprendimento, de possuir alguém para ouvir suas reclamações e, diante das burrices e dos “jeitinhos” que só trazem ou trarão transtornos, exaltar seus cabelos, elogiar o conjunto de suas formas ou desejar abraçá-la até os braços se gastarem. Elegância é o gesto de atenção. Delicadeza é derrubar um tijolo na velocidade de avião com impactante intensidade de penas.


São muitas as exigências de mudança? Não mude sua maneira de pensar e de agir. Mude de parceiro! Procure alguém que seja igual a você ou que se submeta sem resistência ao número incansável de futilidades resgatadas dos mares do supérfluo. Lembre-se: não existem pessoas melhores ou piores, lindas ou feias, inteligentes ou burras, honestas ou ladras. Como leciona o filósofo Bertrand Russell, “somos nós quem criamos valor, e são nossos desejos que o conferem”.


O homem e a mulher que erram uma vez são despreparados ou ignorantes. O homem e a mulher que erram a segunda vez são desatenciosos e displicentes. O homem e a mulher que erram a terceira vez são compreensivos ou condescendentes. O homem e a mulher que erram a quarta, a quinta, a sexta e inúmeras vezes sucessivamente são estúpidos, desconhecem os valores da vida, afundam gradativamente em areias movediças à medida que se movimentam. Já fui despreparado e ignorante. Já me expus desatenciosa e displicentemente. Já lancei mão de compreensão e condescendência. Reservo-me uma vida sem desmazelos, longe das areias movediças, mergulhado em atos receosos, mas nunca perdido na estupidez.


Promessas são propostas que damos ou aceitamos. Se as damos, devemos cumpri-las. Se as aceitamos, precisamos exigir seu cumprimento. Quantas promessas de mudança? De que serviram? Platão diz que virtude e conhecimento integram-se à personalidade do indivíduo no momento em que o espírito entra no corpo. Quem tem facilidade de falar idiomas, de resolver problemas matemáticos ou de tocar instrumentos musicais nasceu com esse dom.


Numa linguagem mais popular, Platão diria que pau que nasce torto nunca se endireita ou que água e óleo não se misturam. O importante não é escolher entre água e óleo. O importante é escolher – ou água, ou óleo – e, depois da escolha, viver em êxtase ou com a água ou com o óleo.


Surge a promessa de amizade depois do encerramento abrupto da paixão, mas a experiência ensina que, na maioria das vezes, relacionamento constitui contrato ao fim do qual cada um toma seu rumo. O dono da casa procura novo morador para alugá-la e o antigo inquilino busca outro teto.


Despedidas se fazem de saudades, de mágoas ou de desgostos. Que tal alegria? Os caminhos pelos quais passamos são apenas o preparo para novos rumos.


Boa viagem.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 8 de junho de 2012.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ÁRVORES DE FIDELIDADE



Um grupo de índios perambulou por uma cidade paranaense em busca de indivíduo que, mesmo sabendo do matrimônio, arrastou asa para uma índia. Depois de encontrá-lo, deixou de lado os gritos de guerra, as agressões físicas e as balbúrdias costumeiras para adverti-lo do mau comportamento e, em seguida, como sentença ao crime praticado contra os costumes, algemaram-no (ou será que amarraram-no?) à árvore de pequeno porte numa rua movimentada.


Os estudiosos do Direito, da Sociologia, da Filosofia e dos Direitos Humanos congregam milhares de seguidores em simpósios, mesas-redondas, jornais, debates ou entrevistas em rádios e televisões a fim de discutirem as penas apropriadas que surtam efeito, inibam os futuros criminosos a se aventurarem nos caminhos fora da lei e ampliem a sensação geral de segurança, construída de atos e atitudes que sirvam de exemplo. Tantas discussões, poucas práticas, eficácias duvidosas e, na maioria das vezes, inúteis. Talvez juristas, sociólogos e filósofos pudessem trocar livros, computadores, gravatas e teorias por árvores, malocas, tangas, observações de práticas e aplicação de métodos que, sem violência ou maus-tratos, economizariam milhões de reais aos cofres públicos.


O dinheiro inicialmente destinado à construção de presídios, penitenciárias, cadeias e casas de abrigo ou de internação de menores de idade tomaria rumos mais interessantes: aumento de salários e contratação de professores, construção de hospitais, diminuição da carga horária de trabalho, ampliação do período de férias, alternativas de financiamentos mais baratos para viagens e aquisição de bens duráveis, áreas de lazer com piscinas e churrasqueiras para o verão, deliciosos jantares e filmes para o inverno, ciclovias e parques infantis em todos os bairros... Uma pontada no coração dificilmente levaria mais de mês para ser examinada no hospital. O pedido de empréstimo bancário para reformar o telhado levaria menos de uma semana.  Que tal assistir ao jogo de seu time do coração não pela imagem da televisão, nem pelas ondas do rádio, nem pelos resumos da internet, mas diretamente no estádio, deslocando-se até lá num ônibus com serviço de bordo? E, para as mulheres, o que acham de irem mensalmente às compras nos centros comerciais de sua preferência?


As opções econômicas são diversas, mas me concentro em imaginar a eficácia da aplicação de penas singelas e, ao mesmo tempo, de alto caráter regenerativo. Dificilmente boa parte de homens e mulheres presos às árvores voltaria com ganas ao convívio da comunidade sem antes passar uns dias em casa, refletindo sobre deslizes e comentários que os seguiriam em qualquer lugar. Se entrassem no super-mercado, alguém rapidamente os reconheceria. Se parassem na fila da farmácia, do posto de combustíveis ou do açougue, o silêncio geral e os olhares inquietos denunciariam o contraventor.


A situação mais cômica ficaria a cargo das crianças que, na escola, nas associações ou nas ruas, alardeariam a presença – transitória ou permanente – do sujeito ou da madame: - A senhora não é aquela que estava amarrada durante o fim de semana no pinheiro do cruzamento da rua 13 de maio com a Coronel Albino? A mulher ruborizaria ou, tomando os ares modernos em que nos encontramos, confirmaria com grande estardalhaço a falta cometida e sairia aplaudida pelos meninos, estupefatos em constatarem alguém tão regenerada e reintegrada ao convívio social.


Claro que, além do lado jurídico e econômico, os âmbitos educacional e ambiental ganhariam destaque à medida que os casos descobertos demandassem aplicação maior das penas e, em pouco tempo, os canteiros das ruas, das avenidas e das praças resplandeceriam de ipês coloridos, de roseiras, de flamboyants. Goiabeiras, macieiras, jabuticabeiras, pés de acerola, de seriguela e carambolas também comporiam a lista, facilitando a vida de quem, mãos amarradas, comeria as frutas naturalmente nascidas enquanto esperasse o fim da pena.


O único ponto preocupante é que, como ressaltou um amigo teólogo, do jeito que as coisas andam, é bem possível que, em pouco tempo, não encontremos mais terras para plantar tantas árvores.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 1 de junho de 2012.