sábado, 14 de janeiro de 2012

ENTRE MORTES E MORTES






O primeiro exercício elementar, para quem deseja entrar no mundo da filosofia, consiste no questionamento rotineiro. Questionamento rotineiro distante da mediocridade, da estupidez e da frugalidade, mas que parte da mediocridade, da estupidez e da frugalidade de conceitos imutáveis ou cristalizados para definir as relações sociais, os caminhos teológicos, as visões de verdade ou de mentira. A Filosofia esclarece e dá-nos visão diferenciada acerca de conceitos milenares que importunam: amor, morte, solidão, divindade, ética, paixão, felicidade... São tantos os temas – cuja perspectiva analítica se modificou em função da evolução das tecnologias, mas manteve a essência – que levaríamos mais de dúzias de colunas para enumerá-los.





Jean Paul Sartre, influente filósofo francês do século XX e expoente do existencialmente, desenvolveu atividade intelectual não apenas no campo filosófico, mas também no literário a ponto de receber – e, comicamente, recusar – o prêmio Nobel de Literatura. Discutiu temas que nos são caros. “A idade da razão” retrata a vida do jovem Mathieu que, transcorrendo o enredo lentamente através de divagações psicológicas e confrontos pessoais, busca a definição da maturidade, simbolizada, ao fim, pelo equilíbrio do espírito.





Não são apenas os filósofos que recorrem aos anseios filosóficos para discuti-los na Literatura, mas também escritores debateram – ou pelo menos ensaiaram provocações – a Literatura através de construções filosóficas como em “O lobo da estepe”, de Hermann Hesse. Os questionamentos se avolumam de tal maneira que o enredo encurrala o leitor nos limites de sanidade: o protagonista da trama é são? O leitor entra e sai dos devaneios do Lobo questionando-se ou respaldando suas teorias?





Quando o professor e articulista de jornais Márcio Alexandre da Silva lançou “Pode morrer de tanto amar?”, a primeira pergunta recaiu sobre se o título esconde mote literário romântico ou inquietação filosófica. Ao fim e ao cabo, a Filosofia demonstra o vigor na novela desse jovem intelectual que, cerrando-se nas fileiras de Sartre e lançando a Filosofia na linguagem literária, nos apresenta painel das peripécias em que o narrador, durante todo o tempo, destoando das premissas fundamentais que alicerçam as dúvidas, parece aflito em apontar respostas, soluções, resultados.





Utilizando-se de complexo jogo de cenas que perpassam dos anos 1970 aos nossos dias, a narrativa transcorre sutilmente no interior paulista, denunciando, em forma de ficção, os problemas de uma família atacada pelos problemas da geada, as péssimas condições de vida da população – não apenas da zona urbana, mas igualmente da área rural – o descaso dos órgãos públicos com o povo, os problemas da gravidez precoce, sem planejamento e sem perspectivas (os pais do protagonista possuem menos de dezoito anos na ocasião de seu nascimento e sobreviverão com o patrimônio de “de duas porcas, três galinhas e um burro empacador”), os questionamentos em torno da felicidade escamoteados pelo narrador e retomados ao longo da trama, os jogos de futebol – esporte aparentemente inerente ao desenvolvimento da personalidade do brasileiro – como pano de fundo de várias cenas...





As mortes e as mortes lançadas ao título desta resenha parecem tão insignificantes quanto insignificantes apresentam-se as réplicas filosóficas. A complexidade não está em descobrir novas perspectivas ou inventar conceitos, mas em tornar visíveis conceitos que julgávamos imutáveis ou cristalizados, proporcionando ao leitor (interlocutor) um novo olhar sobre velhas paisagens. Numa sociedade de líquidas relações, de líquidos desejos e de líquidos objetivos, sentimentos considerados profundos adquirem novas formas e novas maneiras de enfrentamento e, ao fim das contas, o amor romântico – que nos consome, que nos adoece, que nos lança em devaneios e nos atrofia as atividades – aproxima-se mais do comportamento ignominioso do que salutar, benéfico e desejado. Quando o sentimento amoroso nos invade abruptamente, somos levados ao delírio, à estupefação, à incredulidade. Nesse estágio, apenas uma pergunta pode desmontar nossas convicções: morre-se de tanto amar?





Pode morrer de tanto amar?

Márcio Alexandre da Silva – CBJE – 36 p. – R$ 20,00

Contato com o escritor: marciobressane@hotmail.com



*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 13 de janeiro de 2012.

sábado, 7 de janeiro de 2012

COSMÉTICOS

O aumento da venda de cosméticos – e, conseqüentemente, a ampliação de pontos de venda e de vendedoras – é um dado que não pode ser ignorado nem nas estatísticas econômicas oficiais nem na rotina de milhões de brasileiros que tomam os transportes públicos. Outro dia peguei o ônibus de Presidente Prudente a Teodoro Sampaio a fim de resolver algumas pendências na fazenda pública quando, quase cochilando, pernas encostadas no banco da frente, vento morno entrando na fresta da janela, loira de metro e oitenta parou no corredor, reconheceu a passageira sentada ao meu lado:


- Maria! Quanto tempo! Faz o quê? Uns três anos que não nos vemos?


Maria respondeu que não se viam há mais de cinco anos. Última vez, casamento do Pedrinho. Desde então, os caminhos se distanciaram. A loira – em poucos minutos, resumiu sua vida de dois casamentos, noivado fracassado, perda da casa da família, dívida monstruosa no banco e falência do escritório de contabilidade em Rancharia – entrara no ramo de cosméticos.


Colocou a imensa bagagem sobre as pernas de Maria, abriu o zíper complicado da mala, tirou de dentro uns mecanismos que se desdobravam em mil e, a cada abertura, apresentavam ramificações do mesmo produto. Com paciência didática – típica dos melhores professores em busca do espírito fugitivo do aluno intempérie – iniciou a explanação ressaltando a qualidade de vida adquirida durante o século anterior: a diminuição da carga de trabalho e a conquista de ócios regulares permitiram ao homem moderno mais tempo para cuidar de si. Perder peso, preocupar-se com as medidas corporais, eliminar gordura e, uma vez conquistada a segurança física, priorizar a estética.


- É aí que eu entro, disse, sorridente, puxando alguns prospectos e estendendo-os não apenas a amiga, mas também a mim que, naquele momento, já tinha perdido o sono e, irritado, ouvia as promessas de beleza. – Pois, como eu estava dizendo, reforçou, depois de também distribuir os panfletos entre alguns passageiros em pé, a estética, a conservação da pele, o charme que jogamos sobre os homens e a elegância que esbanjamos por onde passamos constituem o principal produto da mulher de hoje. Quanto mais linda ficarmos, mais oportunidades de descobrirmos novos amores. Quanto mais belas permanecermos, menos desperdícios de tempo para resolvermos nossos problemas. As portas simplesmente se abrem.


Uma senhora que ainda não tinha sido aprovada no primeiro estágio mencionado pela loira – o estágio da segurança física – esticou o pescoço quando ela prometeu novos amores e quase caiu em cima da gente ao frisar a facilidade da abertura de novas portas. Confesso que, olhando a saliência em minha barriga, nas laterais, nas coxas e nos braços, passei a olhar mais atenciosamente os produtos. Já estava tão estimulado que pouco me impressionei com os preços. Um creme de aplicação noturna – espalhado entre as sobrancelhas e as pálpebras – custava oitenta reais. O matinal, noventa e três reais; o da tarde, cento e vinte e dois reais e trinta e oito centavos.


A mala ainda dispunha de cremes de costas, de costelas, de peito (peculiarmente produzidos para homens e para mulheres), de pescoço, de orelhas, de olhos, de mãos, de dedos, de unhas, de espaços entre um dedo e outro, de testa, de nádegas (com promessas de enrijecer as flácidas e embelezar as já firmes), de cotovelos, de lábios, de nariz, de pés... Para cada parte do corpo, pelo menos mais três desdobramentos de produtos. Para os pés, existiam cremes para a hora do almoço, do café da tarde, para uso com tênis, sapatos de couro, sandálias abertas, sandálias fechadas, alpercatas, chinelas de dedo, sapatilhas...


Eu mesmo me convencera a adquirir uns cinco produtos e entregar quinhentos reais parcelados em setenta vezes no cartão de crédito – é, ela tinha máquina portátil de cartão de crédito – quando um homem de chapéu de boiadeiro fulminou as pretensões dos futuros ex-clientes:


- Com essa dinheirama, eu aconselharia cirurgia plástica! Para que reformar se pode reconstruir?


*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 6 de janeiro de 2012.