sexta-feira, 14 de outubro de 2011

PROFESSOR ROBERTO

Q
uando iniciei minha atividade docente numa Escola de Ensino Técnico mantida pela Secretaria da Ciência e da Tecnologia, publiquei um artigo num jornaleco que já deixou de existir. Condenei a responsabilidade exacerbada do professor e defendi a eficaz transferência de deveres aos alunos que, sujeitos (e objetos?) da Educação, integravam o processo de aprendizagem.

Boa parte dos livros de Filosofia da Educação atribui ao professor a incumbência de conquistar os alunos e Rubem Alves, filósofo que se valeu da crônica para permitir a milhares o alcance de seu refinado pensamento, igualmente destaca o comprometimento na transformação do comportamento social. Achava injusta a integral responsabilidade do professor, mas fui lendo, relendo, procurando, discutindo, analisando e, passados alguns anos, constato que Rubem Alves estava correto!

Lembro especialmente de um professor de matemática de ensino médio da Escola Estadual José Gonçalves de Mendonça, na cidade de Maracaí. Professor Roberto aparecia na sala segurando uma sacola de supermercado cheia de giz, um apagador imenso e uma régua de madeira de um metro. Mal entrava, enchia o quadro-negro de informações, de fórmulas, de números, de dados, de descrições, de interpretações.

Depois de preencher todos os espaços do quadro-negro, esperava que os alunos copiassem e, durante o tempo de espera, discorria sobre as peculiaridades do direito, questionava as metragens de alqueires paulistas, mineiros e gaúchos, tratava dos procedimentos agronômicos adequados para melhor utilização do solo e maior produtividade do milho e da soja, apostava com os jovens alunos agricultores que daria lucro às suas chácaras, sítios e fazendas se o deixassem administrá-las, apontava as diferenças entre métodos de ensino e, mais importante, valia-se de sua condição de professor para conversar, dialogar, compartilhar idéias, corrigir os equívocos, parabenizar pelos acertos, reconhecer as limitações de suas argumentações e, humildemente, se colocar no mesmo patamar dos estudantes dando-lhes, de maneira genial e discreta, o conforto necessário para seguirem seus caminhos nas descobertas e na produção do conhecimento.

O comportamento cortês e atencioso, jamais querendo evidenciar-se superior, proporcionava uma conversa sincera e fluente que enveredava não apenas na escola, mas também na rua. A solicitude nos aproximara de tal maneira que o convidamos, no último ano do ensino médio, para participar do churrasco em um sítio à beira do Rio Paranapanema.

A diferença de idade entre ele e nós, os alunos, parecia sem importância. Em dezenas de vezes, seu espírito jovem derrubava os preconceitos que nós, alunos com menos de dezoito anos, tínhamos em relação a temas como vida, futuro profissional, iniciativas, família... Quando afastava os lábios, silenciávamos completamente: suas palavras formulariam mais do que simples opiniões. Suas palavras nos transmitiam lições que levaríamos – e continuamos levando – vida afora.

Por um motivo de paixão, escolhi profissões, ocupações e ofícios que sempre me lançaram aos trajetos das letras e da Literatura. Se hoje, quase trinta anos, pouco sei de expressões numéricas, desconheço as equações de primeiro e de segundo graus e não faço a mínima idéia do procedimento de transformar regras de três na descoberta de juros que pago em um empréstimo ou no cheque especial, a culpa é inteiramente minha que esqueci as lições aritméticas, mas lembro perfeitamente do grande mestre Roberto.

Por uma dessas coincidências e percalços do destino, lecionei Filosofia e Sociologia para uma turma de pedagogia. Ao fim do curso, pedi às alunas que escrevessem anonimamente suas críticas e reclamações. A falta de identificação garantia a tranqüilidade de “baixarem o cacete” em minha metodologia. Em casa, abri as folhas das críticas e sugestões. Surpreendi-me: mais de noventa e cinco por cento elogiavam a maneira de dar aula, a atenção em explicar inúmeras vezes, a paciência de conversar sobre assuntos diversos.

O sucesso conquistado na sala de aula se deve, em grande parte, ao professor Roberto Tadeu Sizotto a quem resumidamente direciono duas palavras que são poucas, mas essenciais: muito obrigado!

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 14 de outubro de 2011.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TRUFAS

- Pois é, doutor. Parece-lhe brincadeira, mas arriei graças a uma coisinha de dezessete anos. Desde meus nove ou dez anos sei dos problemas de saúde, especialmente diabetes.

O homem gordo pegou o copo de água, bebeu dois goles, olhou o relógio em cima da porta, respirou fundo e retomou a confissão:

- Minha neta sempre me oferecia trufas. Sabia se tratar de chocolate e, como sabemos, diabético, preciso evitar comidas doces, controlar a pressão, fazer exercícios físicos diariamente. A pressão está mais ou menos controlada. Troquei os exercícios físicos pela falta de comidas doces. Mas, confesso, realmente não me controlei.

O médico dispensou a enfermeira que terminara de injetar líquido no soro do corpulento paciente de oitenta anos, estirado numa cama de lençóis brancos, reclinado com a ajuda de cinco travesseiros.

- Terminava laudo no meu escritório. A planta da fábrica de mostarda, maionese e congênere de Teodoro Sampaio perdeu a estrutura do lado direito. Justiça, os donos alegaram prejuízo do dinheiro investido, férias coletivas aos funcionários para evitar qualquer acidente mais grave. Verifiquei que, na realidade, os engenheiros que construíram jamais poderiam usar aqueles materiais. Economizaram o máximo para aumentar o lucro.

Alguém entrou com bandeja sobre a qual repousavam remédios e copo de suco de laranja. O homem engoliu os comprimidos, bebeu o suco de laranja, pediu um de maracujá, acomodou-se melhor e, à saída do auxiliar, retomou:

- Quase cinco horas da tarde quando minha secretária me informou da ida ao banco: deixara alguns papéis durante o expediente e, ao fim deste, voltava para pegá-los. Uma estratégia muito comum para poupar tempo dos grandes escritórios e estreitar as relações entre bancos e clientes. Pouco tempo depois, alguém bateu à minha porta. Sabia que não era minha secretária. Levantei-me: uma coisinha linda de dezessete anos – ela me disse, rápida conversa, que tinha dezessete anos – segurava uma bolsinha térmica branca, pele perfeita, cabelos pretos repartidos em dois rabos de cavalo, shortinho curto e um top preto apertadíssimo. Nem prestei atenção nos tênis ou nas meias – geralmente presto atenção nos mínimos detalhes.

O auxiliar entrou segurando o suco de maracujá, copo na bandeja ao lado do paciente.

- Sem dúvida, ela não procurava estágio, pois sequer concluíra o ensino médio, nem se interessava na construção ou na reforma de prédios, que são nossa especialidade. Gostaria de vender-me trufas. Antes de comunicar minha impossibilidade de aquisição, entrou na minha sala, aproximou-se da mesa de centro, dispôs cuidadosamente a bolsinha e, para meu espanto, abaixou-se para retirar sua mercadoria: alcançou as trufas, mais ou menos na altura das panturrilhas, sem dobrar os joelhos. Sou homem completo, mas oitenta anos não são oitenta dias. Meu coração disparou. Começava a afrouxar a gravata quando veio em minha direção, puxou-me pelo braço e iniciou o tormento. Apresentou-me os sabores: chocolate, morango, maracujá, avelã, coco, caramelo... Daí para frente nada mais ouvi. Apenas prestava atenção na maneira como ela, a cada vez que pegava um dos exemplares, abaixava-se mais ou menos à altura das panturrilhas sem dobrar os joelhos: o coração tomava velocidades irregulares. Já tinha tirado a gravata, me livrara do blazer, afrouxara os punhos e arregaçara as mangas. Comecei a sentir formigamento, mas me mantive firme, olhando a gracinha pegando as trufas e me mostrando os sabores, as qualidades, os detalhes de produção artesanal. Já estava em ponto de bala quando, sem querer, uma das trufas caiu no chão e, demonstrando sua indiscutível disposição física, inclinou-se a pegá-la sem dobrar os joelhos. Já acordei nessa cama.

A esposa, dois filhos e três netos entraram alvoroçados no quarto. Queriam detalhes do acontecido.

- Trufas! Trufas!

- Sabes que não podes comer trufas, Manuel!

Dois toques na porta. Shortinho curto, top apertadíssimo, bolsa térmica.

- Trufas, disse a esposa. Trufas são realmente muito perigosas.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 7 de outubro de 2011.