sábado, 24 de setembro de 2011

METROSSEXUAL


Sabendo que o professor de fisioterapia cuidava das unhas, da pele, do cabelo, das sobrancelhas, evitava comidas gordurosas, investia em frutas, legumes e verduras, freqüentava a academia cinco vezes por semana e aproveitava os fins de tarde para massagens relaxantes nos arredores do Mercado Municipal de Porto Alegre, passaram a chamá-lo metrossexual. Metrossexual resume-se ao homem vaidoso. Além da masculinidade e da virilidade – nem sempre masculinidade e virilidade caminham no mesmo trajeto – o indivíduo se preocupa com a aparência, a imagem, a elegância, o charme.

Os dois professores do curso de farmácia provavelmente não se ativeram ao detalhe de que nem todos os estudantes são leitores de jornais ou revistas ou mantêm-se bem informados de modo que, enquanto caminhavam para suas respectivas salas de aula, atacavam o fisioterapeuta: - Metrossexual!

Algumas alunas ainda circulavam pelo corredor. Flagraram os professores de farmácia alcunhando o colega de metrossexual e, numa sacada rápida, deduziram o significado: metro são cem centímetros.

O professor de fisioterapia entrou numa sala de risos abafados, olhares desviados, alunas ruborizadas. Alguns tópicos no quadro-negro digital. Pegou a caderneta na bolsa, fez a chamada, saiu para atender ao colega, solicitando informações a respeito do feriado da semana seguinte. Bastou entrar para que as alunas, burburinho constante, se concentrassem entre os joelhos e o umbigo.

As alunas de outras salas de fisioterapia, seguidas gradualmente das de letras, farmácia, pedagogia, serviço social e educação física transitavam vagarosamente pelo corredor, vistas convergindo para ponto indefinido entre o cinto e as coxas. O docente iniciou explanação sobre as posturas de correção de coluna. Já adentrava o segundo ponto do roteiro. A porta estalou abruptamente e sua coordenadora, acompanhada da diretora e da responsável pelo núcleo de pesquisas, informou da necessidade de reforçar, naquele momento, as regras da ABNT.

- Mas, questionou o fisioterapeuta, essas regras não são ensinadas na disciplina de metodologia?

A diretora confirmou, a coordenadora consultou o relógio do telefone móvel e a responsável pelo núcleo de pesquisas enumerou justificativas regularmente voltando-se ao professor e, imitando os movimentos das quarenta e sete alunas, da diretora e da coordenadora, forçando as vistas na região do abdômen.

Cansado da explicação interminável, puxou a cadeira, sentou-se e, antes de cruzar as pernas, ouviu forte lamúria.

- Por que não senta como homem? Indagou uma aluna da segunda fila.

- Sentar-me como homem? Questionou o professor, abrindo as pernas, inclinando-se sobre elas, cotovelos nas coxas.

As quarenta e sete alunas, a coordenadora (mal casada cujo marido a estimulava freneticamente a assumir atividades na faculdade para livrar-se dela), a diretora (caíra de pára-quedas na instituição e facilitava descontos nas mensalidades dos alunos que topassem noite acadêmica em sua casa depois da meia-noite) e a responsável pelo núcleo de pesquisas (nunca tinha feito uma só pesquisa) concentraram-se novamente no docente, andando de um lado ao outro, fechando o zíper que insistia em abrir.

O burburinho tomou novamente conta da sala, a responsável pelo núcleo de pesquisas esclarecia a importância dos centímetros das margens quando, eufórica, a diretora – que parecia mais o retrato perfeito do desenho “A noiva cadáver” – descaradamente perguntou ao professor se os centímetros importavam em trabalhos científicos.

- Claro, asseverou o docente. Cada centímetro é importantíssimo dentro de um espaço limitado, restrito, pequeno, apertado.

As alunas gritaram, a coordenadora ruborizou, a responsável pelo núcleo de pesquisas perdeu o fio da meada do discurso, mas a diretora – a falta de descontos nas mensalidades para as horas extras dos alunos em sua casa estimulava o mau-humor – rasgou:

- O senhor consegue colocar tudo em espaço tão apertado? Sem deixar nada de fora?

- Se consigo, gracejou. Afinal, sou doutor nisso!

A diretora baixinha, cara de “noiva cadáver” e dona de um título de mestre comprado numa faculdade de fundo de quintal, voou aos braços do professor.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 23 de setembro de 2011.

sábado, 17 de setembro de 2011

CORONEL GUAMPA


Vinte e cinco anos de casado, três filhas, casa grande, moto e carro ainda pagando consórcio e sem seguro, Coronel Guampa abandonou a esposa e, com ela, dívidas de estabelecimentos comerciais falidos cuja titularidade na Junta Comercial e na Receita Federal pertencia à consorte. Desde a juventude Coronel Guampa desejava tornar-se empresário da comunicação de modo que, em dezenas de tentativas fracassadas, abriu bancas de jornais sobreviventes a, no máximo, um ano de má administração. As dívidas – das bancas e nos bancos – caíam nas costas da esposa.

Jogou a vida ao alto para se enrabichar com garota de mais ou menos vinte anos. Conhecida aos quatro cantos da cidade e aos limites da região. Gozava fama de dedicada aos homens de todas as espécies, religiões, partidos políticos, grupos sociais, econômicos, intelectuais e etários. Coronel Guampa – que, na verdade, não era oficial e recebeu a alusão após alugar quitinete nos arredores do Parque do Povo para se instalar com o novo amor – figurava entre os super-gordos, mal agüentava correr e caminhava arrastando os pés, falta freqüente de ar. Por onde passavam, as três filhas ouviam os cochichos: - Lá vão os pesos pesados da cidade. Pança, Pançuda e Pancilda.

Critérios de ascensão social bem articulados e indiscutivelmente definidos, a parceira fez com que Coronel Guampa se acreditasse garanhão e, depois de iludi-lo, emprenhou. O arremedo de oficial sentiu a boca amargar, porém engoliu em seco e, com cara de felicidade, festejou a notícia no restaurante chinês. A parceira pôs as manguinhas de fora: exigiu carro para passear e se distrair, demissão do trabalho, condicionador de ar no quarto, roupas novas, sapatos caros, cartão de crédito e TV por assinatura. Não carregava o filho dele?

Receoso de compartilhar as boas novas com as filhas, Coronel Guampa marcou reunião com Pança, Pançuda e Pancilda no Pastel São Jorge, nas imediações da Praça da árvore, a fim de persuadi-las a abrirem mão do carro – que ele prometera devolver depois de seis meses – e, ao mesmo tempo, convencerem a mãe a abdicar do processo de pensão alimentícia.

- Eu não queria falar agora, mas ela está grávida. Vou precisar do carro e também que convençam a mamãe a esperar mais um pouco. O dinheiro que dou todos os meses é muito maior do que deseja pedir na Justiça.

Pança revoltou-se. Alegava que o pai deixara a mãe na miséria, cheia de dívidas, bancos telefonando o dia inteiro e cartórios exigindo o pagamento de duplicatas, cheques e promissórias protestadas. Dali a pouco, garantia a filha, o oficial de justiça levaria as poucas coisas da casa. Pancilda disse que a cidade já comentava que sua atual parceira gostava de passear com amigos estranhos justamente nos dias em que ele trabalhava, mas, irritado com a insinuação de infidelidade – ele, o grande oficial, o grande garanhão, o grande entendido – pagou a conta e saiu pisando firme.

Os meses passaram, as dívidas da ex-esposa aumentavam consideravelmente, as filhas avisavam dos passeios estranhos da parceira, mas o pai negava-se a acreditar em fofocas. Beirava a meia-noite quando Coronel Guampa recebeu a chamada: mulher à maternidade.

Entrou desesperado no hospital. As filhas – apesar dos desentendimentos seriam sempre filhas – esperavam-no na pequena lanchonete. Dali a alguns instantes, o médico saiu: um menino. Sadio, alto, pesado. As filhas de Guampa se entreolharam. As desconfianças encerraram-se no berçário. Pelo vidro, o médico apontou um garotão de quase setenta centímetros, seis quilos, extremamente cabeludo e bela tonalidade de Thaís Araújo.

Coronel Guampa – baixote de 1,52 m, enfrentava problemas de calvície desde a adolescência e tão brancamente desbotado quanto os queijos caseiros – pegou um papel e explicou-se cientificamente:

- Vocês conhecem a miscigenação de modo que não descarto a possibilidade de antepassados transmitirem genes que só agora se manifestaram...

A mulher da lanchonete, vizinha do Coronel Guampa, desabafou em voz alta:

- Pior cego é o que não deseja enxergar.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de setembro de 2011.