sábado, 13 de agosto de 2011

MEU AMIGO DO CÂNCER

Para Felipe (em memória)


Terça-feira chuvosa e fria depois da véspera quente e abafada. Telefono para minha namorada. A funcionária que trabalha com ela informa-me que saiu ao velório. Quase uma hora depois, voz embargada: - Meu amiguinho do câncer faleceu. O enterro tinha acabado de acontecer.

Recordei-me de outro telefonema, meses atrás, antes de iniciar suas aulas. Indagara-me se iria a Assis na manhã seguinte. Ainda tinha conta na livraria? Antes de qualquer resposta, começou a chorar. Contou-me do encontro com a amiga que não via há alguns anos. Conversaram, sorriram, recordaram-se de fatos marcantes. Talvez o fato mais marcante – não do passado, mas da atualidade: o filho da amiga. Numa idade em que muitos meninos aprontam traquinagens, incomodam os pais, azucrinam os adultos e usufruem da bondade inigualável dos avós, o filho da amiga descobrira câncer. Lutava contra a doença que o impedia de jogar bola, de pular cerca, de roubar goiabas, de dirigir bicicleta, de entrar em brigas de escolas...

Compreendi seu choro, entretanto não entendi por que desejava saber se iria à livraria.

- Queria comprar um livro para ele. Já que não pode sair de casa e gosta de ler, acho que poderíamos dar um livro de presente.

Por volta das dez e meia da manhã seguinte entrei na livraria para pegar uma encomenda e perguntei a Maria Helena se poderia me indicar algumas obras infantis, provavelmente para uma criança entre nove e onze anos. Ágil, interessante e fluente. Que prendesse a atenção do leitor-mirim. Maria Helena disse-me que o “Diário de um banana” estava com boa saída. Peguei os dois primeiros dos quatro livros. Entreguei-os a minha namorada para que, na primeira oportunidade, presenteasse o amiguinho. Assim que terminasse de lê-los, poderia solicitar os dois remanescentes.

Semanas depois, disse-me que o menino já lera os dois volumes e, com grande alegria – sempre me alegro quando alguém foi fisgado pela Literatura, recorri à livraria para pegar os títulos que encerravam a coleção.

Por uma dessas singulares justificativas que apenas a Literatura pode nos oferecer, lembrei-me de uma história de Moacyr Scliar. Mathias descobrira leucemia em estágio avançado. Os pais gostariam de levá-lo ao parque de diversões para que se divertisse na casa dos monstros. Mas, levá-lo ao parque poderia comprometer definitivamente sua saúde. Daí um amigo, pegando dinheiro emprestado do pai de Mathias, compra o material necessário para construir um castelo dos horrores. Consegue um carro de supermercado, coloca Mathias dentro dele e dispara pelos corredores da casa. De um quarto sai a mãe ensangüentada de extrato de tomate, o pai é um “enforcado” no banheiro, uma das irmãs cospe fogo na cozinha... Mathias grita, berra, se apavora, se diverte, se delicia. Ao fim da brincadeira, os pais choram de felicidade. Dali a meses Mathias morre. O narrador conclui: ele, o narrador, nunca mais foi ao parque de diversões.

Como disse ao início, o amiguinho de minha namorada faleceu numa terça-feira chuvosa. Na segunda-feira, tinha feito um calor intenso. Talvez Deus, sabendo que precisava de mais diversão nos céus, procurasse alguém versado em Literatura. Olhou para o amiguinho de minha namorada: - Vem cá!

Estranhei a chuva intensa na terça-feira, porém descobri com facilidade o motivo: Deus ainda não criou encanamentos necessários para escoamento de modo que, toda vez que o amiguinho da minha namorada, certamente empurrado por Mathias, desliza pelas piscinas, cai pelos escorregadores do parque aquático ou salta dos trampolins, a água explode pelas nuvens e nos banha.

Um dia me disseram que as chuvas eram lágrimas dos que sentiam saudades dos filhos, dos pais, dos netos... As chuvas são as águas que vazam das piscinas onde o amiguinho de minha namorada e Mathias brincam, estimulados pelo olhar benevolente de Moacyr Scliar.

*Publicado originalmente no jornal Cidade 10 (Maracaí – SP) de 12 de agosto de 2011.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

FAZEMOS SUA DECLARAÇÃO!

O farmacêutico entrou no banco na tarde de sábado para conferir os débitos e créditos dos últimos dois dias quando, passando a vista sobre o balcão, encontrou um panfletinho colorido: Fazemos sua declaração! Puxou o papel. Um grupo de profissionais montara escritório para elaborar imposto de renda a preços acessíveis. Bastava procurá-lo às sextas-feiras, pois atendia apenas às sextas-feiras, em horário comercial. Atendimento obedecendo à ordem de chegada.

Na sexta-feira de manhã apareceu no endereço munido de alguns documentos para conferir o orçamento e se espantou quando informado que o imposto de renda ficaria pronto em duas semanas cobrando-se, para tal serviço, apenas vinte por cento do valor do outro escritório.

A desconfiança transformou-se em admiração: deduziria gastos com combustíveis, remédios, clubes de serviços, pizzarias, churrascarias e viagens. O argumento: o contador anterior desconhecia profundamente as mudanças tributárias dos últimos três anos.

O farmacêutico voltou carregando três caixas pesadas. Entregou os documentos, comprovantes e declarações, conferiu algumas listas, rubricou algumas autorizações e assinou o cheque de exatos 20%.

- Próximos trinta dias em Santiago.

- Santiago?

- Santiago, capital do Chile, aquela que enfrentou terremoto tempos atrás e quase acabou com a cidade. Lembra? Passou na televisão. Tenho um filho que mora lá. Aprovado num concurso da Organização dos Estados Americanos. Acha que precisarei fazer mais alguma coisa antes de viajar?

- O senhor pode viajar tranqüilo. Nossos serviços são de primeira qualidade. Somos contadores. Contadores profissionais! Contadores de primeira linha! Cursamos uma das melhores faculdades deste Estado. Talvez o senhor nunca tenha ouvido falar dela, porque não é muito famosa, mas que é boa? Claro que é! Sem dúvida! Coloco minhas duas mãos, meus dois braços e meus dois pés no fogo! Mas, em todo caso...

- Em todo caso? Empertigou-se o farmacêutico.

- Em todo caso, interessante uma procuração nos dando poderes para resolver qualquer problema relacionado exclusivamente ao Imposto de Renda. Claro que o senhor nos dá a procuração se confiar em nosso trabalho, mas se quiser pode voltar de Santiago, recolher uma taxa ou protocolar um papel que nós mesmos poderíamos ter feito sem importuná-lo.

- Uma procuração apenas para resolver os problemas de Imposto de Renda?

- Exato, assegurou o contador. Nem mais nem menos. O que me diz?

O farmacêutico ponderou sobre uma viagem de longas horas para recolher taxas, autenticar a assinatura ou protocolar documentos na Receita Federal. Decidiu-se pela procuração, elaborada e assinada ali mesmo. Leu reiteradas vezes, conferiu palavra por palavra, frase por frase, significado por significado, observou o alcance do poder que transferia aos novos prestadores de serviços, leu mais uma vez, solucionou as dúvidas, rubricou as cinco vias. Entrou no espaço aéreo chileno de cabeça fria, ótima economia gerada pela troca de escritório. Numa só tacada, resolvera os problemas do Imposto de Renda e, com o dinheiro excedente, comprara duas passagens de ida e uma câmera fotográfica que registraria, se preciso fosse e conforme o manual do aparelho, até a voz e algumas imagens em vídeo.

Assim que desembarcou, pediu ao filho uma agência do banco, mas o filho, querendo mostrar que estava bem de vida no país que o acolhera, recusou-se inúmeras vezes até que, no oitavo dia de viagem, caminhando ao redor de um famoso teatro, encontrou um caixa internacional vinte e quatro horas em que introduziu o primeiro cartão e recebeu a informação de que tanto a conta corrente quanto a poupança apresentavam saldo zero.

Pegou o segundo cartão, repetiu a operação: saldo zero na conta corrente e na poupança. O terceiro, o quarto e o quinto cartões igualmente zerados. Desesperou-se um pouco, voltou ao apartamento do filho, telefonema internacional em horário comercial. O gerente o atendeu: retivera a procuração que permitia o trabalho de seus novos contadores.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 5 de agosto de 2011.