sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

AR CONDICIONADO


 

Roberto e Roberta se casaram pelas afinidades: adoravam guitarra, rock, motocicletas, bicicletas e massas portuguesas. Nos demais assuntos, entravam em acordo, exceto nas compras realizadas por ela ao fim do mês e das saídas noturnas de quarta-feira quando ele se encontrava com os amigos, jogava bola e terminava a noite numa choperia pouco movimentada num desses bairros mortos.



Roberto e Roberta viviam discretamente numa casa financiada e as motos – cada um tinha a sua – também beiravam os juros. Por essa razão, Roberto e Roberta guerreavam nos assuntos financeiros imprevisíveis. Assim ocorreu numa noite de domingo ao saírem da igreja: um carro derrubara a moto, arrebentara o espelho, amassara o tanque, quebrara o pedal e danificara o cano.



Outra situação: Roberto descobrira um problema no ouvido. O serviço público falho e o plano de saúde suicida escusaram-se das eventuais despesas com o tratamento e ele, retirando o pouco dinheiro da poupança e emprestando algum recurso do pai, pagou os exames, as consultas e o tratamento que o levavam semanalmente, por um ano e meio, ao centro de referência da capital.



O calor e o frio pareciam insignificantes diante da possibilidade de comprar um ar condicionado para as noites de calor ou, como desejava Roberta, que morara três anos e meio em João Pessoa, para os dias de frio. As conversas em torno da compra do ar condicionado – os ajustes do orçamento, as perspectivas e os desejos consumistas – duraram cinco meses.



Roberta correu à loja que parcelava em vinte e quatro vezes, porém se assustou com os preços e, voando à biblioteca, pegou o classificado dos jornais: oito anúncios ofereciam preços, tamanhos e potências diferentes. Anotou tudo num papel surrupiado do caderno de um estudante que copiava informações de uma enciclopédia desatualizada.



O primeiro, o quarto e o sexto números já tinham vendido os produtos. O segundo não atendeu às chamadas. O terceiro e o quinto cobravam alto, sendo descartados antes mesmo de qualquer negociação. Conversou muito com o sétimo, mas a voz paciente do oitavo convenceu-a de que deveria verificar as condições.



Sem consultar o marido, transferiu ao vendedor sete cheques pré-datados, escreveu o número do telefone e o endereço no verso e saiu, com alguma dificuldade, segurando fios e peças. Roberto surgiu da cozinha, mãos sujas de farinha de trigo e avental manchado de molho. Que raios de receita ensaiava?



Visivelmente desconfortável pela surpresa, ajudou a descarregá-la. Os eletricistas cobravam trezentos reais para uma simples instalação. Acessou uma página da internet e copiou um manual criado a partir das sugestões de internautas.



Leu as diretrizes, identificou os pontos comuns e em três dias – entre arrumar um orifício na parede e providenciar o suporte – abria uma lata de refrigerante para comemorar. Roberta olhava a gambiarra. Desconfiava das habilidades e, para ficar longe de intrigas, ignorou os métodos de ligação elétrica, fios descobertos do lado de fora, caindo das brechas das telhas ou arrastando sutilmente na calçada onde geralmente acumulavam-se pequenas poças ou da torneira mal fechada, ou dos eventuais pingos de chuva.



- Hoje, inauguramos uma nova fase em nossa vida, disse o feliz marido.



Assistiram ao tele-jornal, sintonizaram no canal de esportes de inverno do Canadá, jantaram massa deliciosa, beberam vinho, presente de um amigo. Verificaram se o gato da vizinha não estava atrás do sofá. Finalmente, vestiram os pijamas. Roberto ligou o ar condicionado. Fazia muito barulho, mas cansados e razoavelmente embriagados, Roberto e Roberta deram pouca relevância ao detalhe. Até a explosão.



Roberta gritou desesperada. Roberto levantou num pulo, correu para a tomada. Para aliviar a fumaça intensa, abriu a janela do quarto, da cozinha, do banheiro e, na sala, enquanto retirava o cadeado, olhou abismado para o céu claro.



- Nunca pensei que veria tanta estrela aqui, suspirou, voltando ao quarto para socorrer Roberta enquanto moradores saíam às calçadas em busca de notícias da escuridão repentina.





*Publicado originalmente na Coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 10 de dezembro de 2010.

sábado, 4 de dezembro de 2010

UM GRANDE ESCRITOR

Legalidade e legitimidade são dois substantivos caros. Legalidade relaciona-se estritamente a quem possui títulos, certificados, diplomas ou documentos que atestam possível capacidade. Legitimidade remete à habilidade profissional de desempenhar satisfatoriamente uma atividade. Quem tem formação legalmente regulamentada nem sempre desempenha satisfatoriamente uma atividade faltando-lhe, dessa maneira, legitimidade. Da mesma forma, nem todos os que se aventuram em uma atividade têm autorização legal, burocrática ou estatal. Charles Kiefer – ao lado de grandes nomes contemporâneos como Luiz Antônio de Assis Brasil, Deonísio da Silva, Cristóvão Tezza ou Milton Hatoum – reúne legalidade e legitimidade: não apenas analisa, estuda ou critica, mas principalmente produz Literatura.





Autor de dezenas de obras – entre elas romances, contos, crônicas e ensaios – e reconhecido tanto pelos leitores (com expressiva vendagem) quanto pela crítica (considerando o número de prêmios e os estudos universitários sobre sua obra), Kiefer utiliza sua experiência de orientador de oficinas literárias no Rio Grande do Sul em “Para ser um escritor” que, em boa parte, constitui, para quem acompanha regularmente seu blog (www.charleskiefer.blogspot.com), seleção de textos relacionada ao ofício da escrita.





Outros escritores renomados já tinham registrado suas impressões pedagógicas ou pessoais sobre a construção ficcional. Entre os brasileiros, Raimundo Carrero, Nelson de Oliveira e o grande Autran Dourado e, no exterior, Stephen Koch, Marguerite Duras, Schopenhauer, Marquês de Sade, Milan Kundera, David Lodge, Ernesto Sábato e Roland Barthes. Kiefer exterioriza suas concepções, levando o leitor a tomar iniciativas no papel social que evidencia o intelectual diante dos empecilhos e das confusões do cotidiano. O escritor tem a palavra para se manifestar, marcar sua posição e se preparar ao combate. Dessa maneira, o anonimato não caberia aos intelectuais no debate das idéias. Covardia? A Literatura não merece covardes, garante Kiefer em “Eu assino o que escrevo” (p. 112).





O livro não agrupa somente concepções de coragem, mas incentiva o estudo sistemático – não necessariamente metódico – e a valorização dos antecessores. Estudar profundamente é, portanto, compromisso indispensável: “A arte não evolui. Por isso, conhecer profundamente a tradição literária é absolutamente necessário a qualquer escritor, sob pena de se passar pelo ridículo de se reinventar a roda”. (p.46)





O estudo de autores, de obras, de análises que agreguem valores aos diálogos intertextuais e enriqueçam o contexto são passos essenciais para assimilar com maturidade as diretrizes dispostas, como se espera de um livro cujo título insinua o caminho “Para ser escritor”, em vários capítulos. Umas das primeiras dicas alerta sobre a má qualidade de obras, destacando problemas com personagens mal construídas ou estereotipadas, ação lenta e desconexa, diálogos superficiais e inúteis, situações inverossímeis, descrições desnecessárias ou que não interessam à narração, textos inexpressivos ou ausência de sutileza. A cada um dos tópicos, Kiefer discorre sobre pontos essenciais que, na prática, auxiliam o bom leitor a analisar com mais capacidade o que descodifica e garante ao aspirante de escritor um roteiro bem estruturado na concepção de suas criações (p. 34-37).





A busca da perfeição também se manifesta no levíssimo “Quatro mundos da criação” em que se estabelece a gradação pragmática e didática no ensaio, na tentativa, no esboço arquitetônico da obra de arte. O discernimento e a conceituação de gêneros narrativos são expostos, discutidos e singularizados como no caso de “É conto ou crônica?” em que, nas primeiras linhas, discorda do poeta Mário de Andrade para quem a definição de conto ou crônica se daria pela escolha em enquadrá-la – sem mais questões estéticas – em um ou outro gênero.





“Para ser escritor” é, no mínimo, um manual indispensável para os que desejam se tornar autores, narradores, ensaístas, dramaturgos, poetas: didático, pragmático e fluido sem, no entanto perder sua capacidade de teorização e de espanto aristotélico.



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Para ser escritor (COMPRE AQUI)

Charles Kiefer – Leya – 160 p. – R$ 29,90





*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 3 de dezembro de 2010.