sábado, 23 de outubro de 2010

ABRAÇANDO MILHÕES

Moacyr Scliar é, de longe, um dos escritores brasileiros mais importantes, prolíficos, profícuos e cosmopolitas da atualidade, comparável aos grandes nomes americanos ou europeus. A facilidade com que desenvolve sua prosa – seja no romance, seja na crônica, seja no conto, seja no ensaio – demonstra a magnitude de quem fez da palavra atividade de transformação pessoal (quando vence seus limites e redescobre a intensidade do poder criativo) e coletiva (ao nos mostrar sua desenvoltura nas construções sintáticas e semânticas, indiscutivelmente marcadas pela profundidade de suas mensagens).



Essas qualidades reaparecem consagradas em “Eu vos abraço, milhões”, romance de pouco mais de duzentas e cinqüenta páginas que sai pela Companhia das Letras. O que se avalia num escritor consagrado não são mais apenas as questões de linguagem, de estilo e de construções metafóricas – consolidadas e familiares ao seu público cativo – mas a possibilidade de unidade de obra, erigida em temas recorrentes, que perpassam seu trabalho e exteriorizam suas preocupações. Em “Eu vos abraço, milhões”, Scliar refaz a trajetória de Valdo, filho de empregado de estância, cujo pai é humilhado pelo coronel Nicácio. Embora leitor atento e estudante cioso de suas tarefas, Valdo se deixa envolver pela doutrinação do filho da professora de português que, com linguagem adequada e argumentação estruturada, o convence da superioridade do marxismo.



Valdo então pretende seguir para o centro comercial, industrial e político do Brasil para se filiar ao partido comunista e lutar por uma causa que, na prática, asseguraria a mudança no país. A mudança no país, talvez pense Valdo, evitaria situações humilhantes pelas quais passara o pai. A legitimidade do discurso se mantém pela maturidade do narrador em primeira pessoa – o narrador-personagem está em idade avançada, morando, apesar dos protestos dos filhos, numa “casa geriátrica” –, pela intimidade que imprime tom confessional, pelo suporte dos relatos pessoais que é a carta escrita – deixando de lado as mensagens eletrônicas –, pelo distanciamento entre o narrador e o destinatário (um neto que mora nos Estados Unidos, com quem mantém pouco contato. O pouco contato e o distanciamento promovem um aspecto de verdade à narrativa).



Quando destaca esses aspectos narrativos, Scliar retoma amadurecidamente alguns temas que configuram a unidade de sua obra: política, história, memória, Literatura, movimentos sociais, comunismo, medicina, o encantamento de Porto Alegre (como espaço de chegada, de partida ou de desenvolvimento das tramas), da religião como Fato Social observado por Durkheim. Encontramos, por exemplo, “Mês de cães danados” ou “O exército de um homem só” com temas políticos – práticos e teóricos – em situações diversas na história brasileira, retomadas em “Eu vos abraço, milhões”.



A maturidade ainda deve ser festejada na medida em que, seguindo a tradição Literária que criou nos últimos cinqüenta anos, Scliar aperfeiçoa a linguagem que contempla de velhos a jovens, de adultos a adolescentes, demonstrando sua capacidade original de prender o leitor por uma história bem contada em forma e em conteúdo. Essa a grande qualidade de “Eu vos abraço, milhões”: o esplendor da maturidade de quem, seguindo os passos de Érico Veríssimo, mostra-se universal pelo local, consagrando-se pela diversidade, pela forma e pelo conteúdo.



“Eu vos abraço, milhões”, retomando uma das temáticas preferidas do autor gaúcho, resulta numa síntese do bem escrever. Mais um precioso livro que entra na bibliografia do escritor e na biblioteca de admiradores, bons professores e leitores em geral.





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Eu vos abraço, milhões

Moacyr Scliar – Companhia das Letras – 256 p. – R$ 39,50



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Neste domingo, 24 de outubro, a Spoladore Eventos e a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo encerram o Salão do Livro de Presidente Prudente que ocorre no Centro de Eventos IBC, Rua Hugo Lacorte Vitale, nº 46, Parque Furquim, próximo ao Centro Cultural Matarazzo. Às 16h de domingo, segundo previsto no cronograma do evento, Moacyr Scliar – escritor, médico, membro da Academia Brasileira de Letras e colaborador de vários periódicos nacionais e internacionais – discorrerá sobre “O autor dentro de sua literatura”. Oportunidade única! Melhores informações: www.salaodolivropp.com.br Participem!



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 22 de outubro de 2010.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

PROFESSOR RUBENS

Quando entrei no primeiro ano da faculdade, encontrei um professor calvo, quase metro e oitenta, teólogo, filósofo, mestre e doutor em História que apresentava as nuances da teoria do estado, do pensamento filosófico e das ciências políticas. Desde os primeiros momentos alguns alunos e eu nos encantamos com a avalanche de erudição de quem, na primeira aula, ousou nos empurrar Bobbio. Qualquer livro de Bobbio apresenta uma série de dificuldades por reunir, em parágrafos curtos, a densidade de idéias e de análises enciclopédicas.



Cada sexta-feira ouvíamos as aulas que jamais consistiam num trajeto retilíneo, porém recheadas de tempestades, de turbilhões beligerantes, de confrontos, de desencontros, de percepções múltiplas e de exercício psicológico nos moldes de Clarice Lispector. Não se pode esquecer que vez por outra entrava no espírito de Fernando Pessoa e Shakespeare, na axiologia iconoclasta de Nietzsche ou nas aventuras de Foucault.



Os dois anos iniciais passaram e voltamos a encontrá-lo no penúltimo lecionando metodologia científica, atividade que acabou resultando num livro útil a que, até hoje, já mestre e turista no mundo acadêmico, recorro frequentemente.



Durante as aulas de metodologia, mostrava os sistemas de análise, as tais dedução e indução, hipótese, tese, levantamento e fichamento bibliográficos. Assistia à aula, impressionado novamente pela capacidade oratória aliada à vasta erudição de um mestre das ciências humanas. Além de grande analista intelectual, possuía uma qualidade que muitos desejam, mas que poucos efetivamente alcançam com sucesso: a arte da escrita.



Daí que cada aula de metodologia fugia às convenções da explanação de regras mortas e sem tesão para entrar barulhentamente nas relações epistemológicas e de estilo. Explanava pormenorizadamente quais recursos estilísticos usar:



- Concentrem-se na primeira escrita, pois a primeira passada de olhos quem faz é você, mas na condição de leitor.



Em decorrência de suas análises singulares, de suas interpretações que diferiam do senso comum – e principalmente do senso comum estudantil preguiçoso – e de sua oposição a alguns pontos de consenso reiterados sem reflexão pelo comodismo dos tempos, suas observações causavam burburinhos e protestos nos intervalos das aulas.



Lembro especialmente de duas situações que causaram burburinhos por três ou quatro semanas: estudo e livros. Quando voltou de uma de suas viagens a São Paulo, disse-nos que passara noites e intervalos dos compromissos lendo filosofia. Os alunos se revoltaram. Jamais, afirmava grande parte dos discentes, ficaria trancada ou lendo em São Paulo.



A outra revelação – e espero não causar nenhum problema ao seu casamento – era a paixão pelos livros. A esposa Carolina (como a de Machado de Assis ou da música de Chico Buarque) reclamava, brigava, ralhava, repreendia, zangava-se, se inquietava quando aparecia com eles. Para manter as pazes com a esposa e continuar a paixão da leitura, optou por método prático: entrava em casa escondido, depositava o livro na biblioteca e só então voltava para o carro, buzinando, fazendo alarde, como se tivesse acabado de chegar.



- Cada aluno que vai sair daqui, continuava no culto à leitura, deve ter, pelo menos, uma biblioteca de 150 livros. O advogado tem que ter 150 livros de sua área. O economista deve ter 150 livros de sua área. O historiador, o administrador, o contador, o médico, o agrônomo, o físico, o biólogo...



Nos dias seguintes, nós, os alunos, achávamos absurda a proposta de 150 livros específicos em nossas estantes.



Hoje, passados dez anos desde nosso primeiro contato, verifico que o professor Rubens Galdino da Silva deslizava – e desliza – em patamar a que, se quisermos chegar, ainda precisamos amadurecer, ler, refletir e se dedicar muito.



Talvez eu não tenha mencionado. O professor Rubens Galdino da Silva cursou teologia porque queria ser clérigo protestante. O grande Rubem Alves também. Sou cético, mas quando leio que a “verdade vos libertará” (Jo 8,32), inevitavelmente me lembro de Rubens Galdino da Silva e Rubem Alves, enchendo-me de sincero contentamento na esperança de que a verdade que um dia os libertou possa, nas canções de suas palavras, nos preencher.





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De hoje até domingo, 24 de outubro, a Spoladore Eventos e a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo promovem o Salão do Livro de Presidente Prudente que ocorrerá no Centro de Eventos IBC, Rua Hugo Lacorte Vitale, nº 46, Parque Furquim, próximo ao Centro Cultural Matarazzo. O evento será realizado das 9h às 22h (de segunda a sexta-feira) e das 10h às 22h (aos sábados e domingos). Melhores informações: www.salaodolivropp.com.br Participem!


 
*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 15 de outubro de 2010.