sábado, 9 de outubro de 2010

UMA LINDA MULHER

O poeta Affonso Romano de Sant’Anna  escreveu uma crônica magistral que, na voz perfeita do ator Paulo Autran, nos faz pensar na interação da Literatura com outras disciplinas, manifestações artísticas e teorias do conhecimento. “A mulher madura” só tem vida quando une texto de Affonso à voz de Autran.



Talvez a insistência de ouvir a interpretação da crônica me tenha feito perceber alguns pontos interessantes nas mulheres maduras. Mas, assim como uma aluna interrompeu Affonso em uma de suas aulas na PUC do Rio de Janeiro para perguntar se ela já chegara à maturidade, indago: o que é a mulher madura ou, pelo menos, o que é uma mulher madura? Ela se estabelece pela idade, pela experiência, pelo dinheiro, pela quantidade de viagens no mundo, pela profissão, pela inserção social? Ela se constrói pela capacidade de encantar discretamente ou pela sutileza de exalar o perfume antes mesmo de chegar? Uma mulher madura se constitui pela idade – 20, 30, 40 anos? – ou se forma na perspectiva de se tornar atraente, erótica e sensual durante as rotinas?



Diante dos questionamentos, melhor deixar os pensamentos voarem numa velocidade própria e achar não mais uma mulher madura, mas uma linda mulher em quem possamos concentrar nossas atenções, pensarmos em seu charme durante a noite, sonharmos com ela durante o dia e sentir seu cheiro musical aos fins da tarde.



Quando o fim da tarde coincide com sua chegada, a transformação do ambiente pressupõe experiência estética única, repetindo algumas das discussões filosóficas de Parmênides sobre realidade e aparência. A realidade se configura pelo sorriso daquela linda mulher enquanto a aparência – efêmera como todas as coisas gostosas – deveria se diluir, mas se mostra intacta e revigorante.



São nesses momentos que descobrimos se um homem está enfeitiçado. Os homens se alteram e se comportam de maneira inesperada. Querem simplesmente se aproximar da linda mulher, sentir o vôo de seus cabelos, o desejo de seu pescoço, os gritos dos olhos. O homem enfeitiçado quer uma linda mulher perto da visão, como se quer perto das mãos as teclas do piano, como se quer perto dos olhos os romances mais instigantes, como se quer perto dos ouvidos as notas de Ravel, como se quer perto do nariz as essências vitais, como se quer perto da pele o gosto da vida.



A busca do homem muitas vezes é útil. Útil porque permite que o amadurecimento das tentativas consubstancie as próximas tentativas numa vontade intensa da conquista da linda mulher que, para ser amada, precisa decidir-se por uma resposta à pergunta aristotélica: Que espécie de amor você quer? Se, mesmo assim, a dúvida persistir e a resposta se embaralhar, talvez seja hora de mergulhar em Epicuro e questionar a si mesma: busco a felicidade ou a formalidade?



Quem pensa que a filosofia não tem aplicações práticas e não serve para nada está certo. Rubem Alves e Affonso Romano de Sant’Anna já nos deram oportunidades de conhecer o “nada” por meio de suas crônicas. Talvez seja esse “nada” que permite à mulher – seja a madura de Affonso na voz de Autran, seja a que idealizamos no espetáculo do crepúsculo – a metamorfose de sua vida, da minha vida, das nossas vidas. Bem ou mal, chega o momento em que a mulher – assim como o homem – descobre que Epicuro estava predominantemente correto: a felicidade é muito mais importante do que a formalidade, a burocracia, os estigmas e as opiniões dos outros. É só observar, por exemplo, qual o destino dos personagens de Carlos Heitor Cony e de Lygia Fagundes Telles ao se guiarem pela opinião alheia.



Uma linda mulher – mesmo quando não temos o prazer de vislumbrá-la todos os dias – tem o poder de nos enfeitiçar e nos deixar hipnotizados com sua presença em nossas mentes. Talvez por isso os fins de tarde se apresentem tão fabulosos e aguardados, provavelmente na esperança de que entre esvoaçante, trajando mais um de seus belos vestidos que nos deixam extasiados, usando um corte de cabelo perfeito, um sorriso dramatúrgico, maquiagem jovial e palavras diferentes, compreensivas, sedutoras. Essa linda mulher decifra-se em pura ebulição nos tornando espectadores num primeiro momento, expectadores em uma segunda oportunidade e, ao final, fãs quase incondicionais. Quando finalmente caímos em seus cantos de sereia, esperamos angustiadamente os hálitos da construção de intermináveis suspiros, devaneios e desejos inomináveis.





*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 8 de outubro de 2010.

sábado, 2 de outubro de 2010

PROFESSOR DE FILOSOFIA


Para Júlio Cesar Gonçalves, filósofo e educador



O professor entrou atrasado depois de transitar por cinco dos doze prédios da instituição, procurar indicativos ou pontos de referência, pegar um livro de Nietzsche que caíra enquanto descia seis lances de escadas, comprar uma Coca-Cola, lembrar-se do cheque especial estourado, do filho que queria um intercâmbio, da filha que procurava um namorado, da mulher que reclamava que ele trabalhava muito, do ex-orientador exigindo produção científica, de um antigo amor do Paraná, do congresso em Florianópolis...



- Boa tarde. Sou o professor de filosofia. Hegel, Nietzsche e Russell são nossos objetos de estudo nos próximos cinco sábados. O tempo é pouco – disse, observando a sala repleta de homens e três mulheres, botas, calças jeans, camisas de flanela colorida e alguns usando fivela de cinto de causar inveja aos mais brilhantes profissionais de pratos da rainha da Inglaterra – mas faremos o possível para nos aprofundar no sistema filosófico desses três pensadores que são, do meu ponto de vista e de milhares de especialistas e leitores, os mais importantes da sociedade ocidental.



Retirou alguns papéis da bolsa e enquanto escrevia esquemas no quadro, ouviu um aluno falar baixinho ao outro:



- Não disse que valia a pena? Que tinha bons professores? Onde mais estudaria filosofia? Aqui tem café no bule.



O professor riu discretamente, concluindo as anotações, abrindo a lata de Coca-Cola e perguntando se tinham tido aula de filosofia em seus cursos de graduação. O silêncio o advertiu da cautela necessária e do esforço redobrado na transmissão dos conhecimentos. Se emaranhasse as complexidades dos três filósofos na primeira oportunidade, os alunos se amedrontariam.



- Pois bem, disse espontaneamente, gostaria de saber se alguém aqui já ouviu falar de Hegel. O silêncio bateu mais uma vez nos alunos que se entreolhavam, virando-se para os lados, para frente e para trás, em busca dos mais bem informados.



Como ninguém se manifestasse, o professor continuou:



- Hegel tem um importante papel na teoria do conhecimento, principalmente porque inspirou aquele que é considerado o filósofo mais famoso, cujas teorias causaram uma grande modificação no cenário político mundial de todo o século vinte. O nome dele? Karl Marx! Marx desempenhou um papel importante como grande teórico do Direito, da Filosofia, da Sociologia, da História, da Economia e, para alguns, da Literatura. Vocês já ouviram falar de Marx, não é?



- Claro, respondeu uma senhora sentada ao fim da fila do meio. Ou o senhor acha que não assisto ao Fantástico no domingo à noite?



- Perdão. Marx no Fantástico? No domingo à noite?



A senhora gorda fez pouco caso, falando com desprezo e ironia.



- Claro! Pelo visto, o senhor não assiste nada! E ainda se diz professor! Pois, todos os domingos à noite, eu assisto ao Marx fazendo o trabalho de conciliação nos Tribunais de Justiça de São Paulo e do Rio de Janeiro. Por isso ele é tão importante para o Direito, a História e para a Sociologia, porque consegue fazer as pessoas se conciliarem...



Uma risada estourou. Um aluno de óculos de sol denunciou: a gorda confundia o filósofo Karl Marx com o apresentador do Fantástico Max Gehringer. A sala inteira caiu em gargalhadas. A aluna rechonchuda engolia a empáfia.



O professor de filosofia voltou a beber mais refrigerante, respirou fundo e discorreu sobre a vida do Nietzsche, filósofo que acrescentara uma maneira virulenta de filosofar na medida em que se tornou um iconoclasta e divergiu sobre as práticas e discursos no louvor cristão. Alguém ouvira falar de Nietzsche?



O silêncio e a troca de olhares cabisbaixos o levaram a pensar que a educação se encontrava numa situação muito difícil. Se, naquela faculdade de ponta, os alunos desconheciam Nietzsche, o que mais lhe faltava? Respirou fundo de novo, sentou-se um pouco e quando se arrependia de aceitar as aulas, um homem de botas empoeiradas, cinto marrom com grande fivela e camisa xadrez adentrou rasgando a sala e se desculpando pelo atraso.



- Boa tarde, disse o professor de filosofia. O senhor é aluno?



- Aluno? Sou professor. Disseram-me que a aula seria aqui, mas vejo que estou enganado, apesar de estar no prédio correto. De que o senhor dá aula?



- Filosofia, respondeu o professor.



- Quando me convidaram para lecionar aqui, me disseram que essa era uma das melhores faculdades do país, mas é a primeira vez na vida que vejo aula de filosofia em um curso de pós-graduação em veterinária.



- Veterinária? Indagou o filósofo, entre surpreso, aliviado e sorridente.



*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 1 de outubro de 2010.