sábado, 24 de julho de 2010

STREAP-TEASE

O professor jogou a bolsa no banco ao lado, retirou a calculadora, ajeitou os óculos, puxou uma caneta especial – presente da namorada que viajara à capital do Peru – cruzou as pernas e se meteu a corrigir, verificar e homologar os resultados das contas dos alunos do curso de economia.





Ao fundo, algumas mulheres discutiam os preços dos alimentos. Uma delas interrompia vez por outra a conversa coletiva para falar de um cruzeiro de três noites pelas ilhas do Rio de Janeiro, mas ninguém se interessava. Quando a conversa voltava à empolgação, a mulher do cruzeiro interrompia novamente, falando de detalhes anódinos. Viajara numa dessas promoções em que farofeiros tiram mil fotos para, enchendo a paciência dos interlocutores, tecer supostos comentários especializados.





O motorista do ônibus sintonizara numa rádio AM que executava músicas românticas ou instrumentadas. O vento entrava pela única janela aberta. O professor continuaria corrigindo as contas dos alunos, guardaria o material antes de despontar na primeira parada e, em frente ao posto de combustíveis, desceria tranquilamente.





Sentiu uns repuxos na perna esquerda. Coçou a perna sobre a calça. Os repuxos manifestaram-se dali a pouco. Ele coçava, os repuxos paravam. Coçou até que o suor apareceu nas costas da camisa e na testa. Os repuxos pararam de vez. O vento esfriou o suor. Pensou no que o filho dissera na véspera: - Um sedentário, quando faz os primeiros exercícios, sofre modificações no corpo, sentindo com mais freqüência o sangue correr nas veias.





- Só pode ser isso, disse baixinho, guardando a calculadora e as provas. Já se desconcentrara. Mexera-se tanto no escuro que as passageiras ao fundo deixaram de lado as especulações em torno dos alimentos para elogiarem o bumbum empinado e as pernas grossas. O cavanhaque recebeu moções de aplauso das mais novas.





Um delas disse que adoraria vê-lo apenas de cuecas. Se fizesse um streap, disse a casada há seis anos, que já não via graça no marido, a noite seria perfeita, principalmente se... A casada há seis anos interrompeu o discurso, prontamente retomado pela farofeira que viajara em excursão no cruzeiro pelas ilhas do Rio de Janeiro. O professor levantou-se aos pulos, saltou no meio do corredor, passou a mão na perna esquerda, depois na direta, arrebentou os botões da camisa e revirou os olhos.





- Meu Deus do céu, gritou uma das mulheres. O motorista acendeu a luz interna para verificar o motivo do grito e deu de cara com o professor, passageiro antigo da linha e assíduo no horário, que já se livrava da camisa, ora colocando a perna direita em cima de um banco e se alisando furiosamente, ora chutando a perna esquerda nos braços das poltronas, ora roçando as costas de maneira chocante no balaústre, ora ameaçando se jogar no chão.





A euforia das passageiras se intensificou quando, acabando Bee Gees, a música ecoou pelas caixas de som embutidas. Os primeiros acordes fortes, violentos e impetuosos denunciavam a voz estridente que os acompanhariam em “I’ll survive”.





Os versos da letra e os olhos elétricos de uma professora, também sentada ao fundo, impressionaram ainda mais o motorista:





- Ai, meu Deus!

 O professor arrancou o cinto, jogando-o sobre um casal incrédulo. Tirou a bota direta, se livrou da esquerda, desfez-se das meias, tentava abrir o botão da calça que, no nervosismo, insistia em ficar preso e para o qual duas candidatas já se apresentavam. Outra professora, sentindo um calor incontrolável, disse que desmaiaria.


O motorista parou o ônibus no posto da polícia rodoviária e ameaçou: ou se vestia, ou desceria direto para a cadeia. O professor não pensou duas vezes. Com a ajuda de uma mulher que rasgara o botão com um estilete, jogou as calças pelos ares, pulou no banco de trás. O fim da música coincidiu com os gritos eufóricos e satisfeitos das espectadoras que, minutos depois, berravam histericamente, soltando-se de saias, vestidos, calças, camisetas, blusas. No desespero, uma das passageiras caiu no corredor. Duas mulheres tentaram levantá-la, mas a balbúrdia, o empurra-empurra, os gritos, os tabefes, os socos, os chutes e as pernadas as impediam.





Prestando esclarecimentos ao policial de plantão, o motorista incrédulo não imaginava como as centenas de formigas quase carnívoras entraram no ônibus.






*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 23 de julho de 2010.


sábado, 17 de julho de 2010

CASA DE PRAIA

Amigos optaram pelas praias de João Pessoa. Cansaram das Serras Gaúchas, pavor de Campos do Jordão, distância da Serra de Itatiaia ou da Cidade Imperial.



Uma colega de classe, que trabalhava em agência de viagens, emprestou um prospecto colorido assegurando que obteria desconto de cinqüenta por cento do aluguel de uma casa na praia de Lucena caso pudessem pagar à vista. Arrumaram quatro carros e cortaram o interior de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco e, finalmente, estradas esburacadas, léguas sem comunicação e pedágios inesperados, entraram em território paraibano. Acharam a capital com alguma tranqüilidade e, saindo de João Pessoa por um desses barcos que transportam carros, ônibus, motos e pequenos caminhões, chegaram a Lucena.

 

Um deles saiu disfarçadamente da cozinha e telefonou para dois primos. Conversaram e, informado dos quinze graus médios que congelavam as noites e esfriavam o interior dos edifícios durante os dias, rematou:

 

- Pois é. Aqui tenho um problema que não tem solução: trinta e cinco graus, refrigerante, cerveja, carne. Só tenho trabalho de beber, de comer, de dormir.

 

Antes de repousar o fone no gancho, protesto dos primos, inconformados com o desaforo. Os primeiros dias decorreram bem, mas no sexto, cansadas do trabalho que denominavam escravo, as namoradas saíram cedo sem deixar nada preparado nem para o café nem para o almoço.

 

A revolta passaria despercebida se, após a manhã intensa nas águas, a fome não esticasse suas garras às 14h.

 

- Assim não dá, disse o primeiro que, levantando-se do sofá improvisado na área, correu para cozinha. Abriu a geladeira e o refrigerador: carnes de frango, de boi, de peixe, de porco. Tinha até camarão e caranguejo. Quem cozinharia? Se algum filho de Eva soubesse, quando o gelo sairia do frango, do boi, do peixe?

 

As lamúrias se acumulavam até que, lembrando das compras do dia anterior, as figuras de dois pacotes de comida pronta afloraram na mente de Junior Junior, estudante de direito que mal sabia a diferença entre nada e coisa nenhuma.

 

Reviraram a geladeira, o congelador, olharam no lixo para verificar se alguém os tinha devorado. Em meio ao alvoroço coletivo, Junior Junior lembrou-se da sugestão da namorada de colocar os pacotes junto com cervejas e refrigerantes numa caixa térmica comprada em João Pessoa. A namorada constatara que a caixa realmente cumpria a promessa de pelo menos três dias ininterruptos com pedras de gelo intacto.

 

Correram para a caixa, jogada discretamente na despensa improvisada. Quatro homens para, com grandes dificuldades, arrastá-la ao meio da garagem. Seguiram as instruções, porém os mecanismos insistiam em se manter fechados. Leram novamente, mas diante da resistência concluíram pela melhor e mais prática alternativa: arrombamento.

 

Dois marmanjos mais fortes forçaram as travas sem sucesso. Outro veio da cozinha segurando uma vassoura e, com alguma perícia, introduziu-a entre a trava e a parede da caixa térmica. A vassoura partiu-se assim como a segunda, que servia para limpar o terreno, um rodo, uma colher de madeira. Até um pedaço de caibro e de ferro foram usados sem êxito na empreitada.

 

Um vizinho solícito apareceu no muro. Precisavam de alguma coisa? Não teria um alicate? O homem trouxe não apenas o alicate normal, mas também um exemplar grande que servira no trabalho do filho metalúrgico. Sucesso?

 

O vizinho emprestou uma pá, uma enxada, um martelo, uma picareta, uma marreta. As travas resistiam às investidas dos inimigos que, impacientes, já pensavam na hipótese de dar marretadas quando, sorridente e diabólico, o vizinho reapareceu no muro:

 

- Se nada funcionou, talvez isso aqui ajude. Uma dinamite.

 

As namoradas entraram pela garagem, sacolas cheias de quinquilharias adquiridas nas barraquinhas de artesanato. Estranharam a bagunça e a caixa térmica em estado de destruição.

 

- Não conseguimos abri-la, justificou-se um dos estudantes. Já estávamos até pensando em pegar isso emprestado, apontando para a dinamite.

 

A loirinha de saia creme entregou as sacolas à amiga, avançou sobre a caixa, puxou as travas para cima e para o lado: clic.



 

*Publicado originalmente na coluna Ficções, Caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 16 de julho de 2010.