sábado, 10 de julho de 2010

ESPANTA-MOSQUITO



Chuva ou sol, riqueza ou pobreza, saúde ou enfermidade, o menino aparecia no primeiro dia oficial de férias, arrumava as malas no guarda-roupa, mudava a decoração do quarto, assistia televisão das oito da manhã às oito da noite, azucrinava o avô, aperreava a avó, importunava os empregados, desmantelava a vida dos animais.





Soltara um cachorro assassino, roubara os ovos das patas, substituíra o sal de cavalos e bois por açúcar, jogara areia no leite, acomodara o porco mais imundo no carro, abrira as portas da sala para os cabritos, mudara os poleiros das galinhas para o banheiro de fora, prendera uma raposa na despensa e, se a avó não tivesse visto e denunciado, pegaria uma cobra – sem veneno, é verdade – e a aprisionaria em qualquer lugar da casa.





O avô gostava das traquinagens – ele e o filho também tinham sido incontroláveis na infância e na adolescência – e, como naquelas cenas em que o pai de Brás Cubas simplesmente minimiza as atrocidades do filho, passava a mão na cabeça do neto.





Além de azucrinar a vida de todo mundo, o menino também tinha uma curiosidade incontrolável. Perguntava por que as lâmpadas da casa do sítio eram diferentes das lâmpadas da cidade, questionava a velocidade que o avô dirigia o carro, ria dos vestidos floridos da avó, reclamava do jeito de cozinhar o almoço, ficara incrédulo ao saber que se produzia sabão com a banha do porco, quase desmaiou ao presenciar a galinha botando e correu o mais que pode de uma gansa, irritada com os ataques aos filhinhos.





A curiosidade era tão grande que o avô, prevendo as proezas, escondia objetos valiosos e delicados. Os objetos valiosos eram canecas de time, oito coleções de carrinhos, garrafas miniaturas de refrigerantes, trinta e sete camisas do Flamengo, fotos de namoradas (que também eram escondidas da avó), dois pares de botas dos filhos quando pequenos, trezentas e trinta receitas de filé de frango, duas garrafas de vinho do Porto... Os objetos delicados, na realidade, se reduziam a dois: um revólver de seis tiros e uma espingarda calibre doze.





Algumas pessoas mais vividas dizem que os desafetos são os “pés da Besta”. No caso do menino, outro ditado não seria melhor: descobriu o esconderijo do avô. Ignorou as canecas, brincou com os carrinhos, bebeu os refrigerantes em miniatura, achou horríveis as camisas e as fotos, desprezou as botas do pai e do tio, espalhou no chão as receitas de frango, escorregou uma das garrafas de vinho do Porto e, escondidos numa grande caixa, vislumbrou o revólver e a espingarda, encantando-se por esta última.





O gatilho, o brilho do coldre, o cano que refletia até a sujeira dos dentes o meteram numa fascinação imperturbável, quebrada com a chegada e a ação rápida do avô que tirou a arma das mãos pequeninas.





O avô conversava francamente com o neto sobre os mais diversos assuntos. Desde crise financeira a problemas no pasto, de educação a jogos de carta, de sexo a física nuclear, passando por esportes, religião, movimentos sociais, política monetária, estelionato, corrupção, mulheres, Flamengo. Contudo, sabia da necessidade de inventar uma história para explicar o uso da espingarda:





- Isso aqui se chama espanta-mosquito. Esses danados ficam zunindo no ouvido, entram no olho, na boca, no nariz. Quando estão demais, eu venho aqui, pego esse espanta-mosquito e eles desaparecerem rapidinho.





O menino ficou quieto nos dias seguintes. A avó pensou em levá-lo ao médico. Um dos empregados do sítio, percebendo o silêncio geral, perguntou se ela não gostaria que chamasse uma benzedeira. Se até de manhã não melhorasse, se apegaria aos santos, ao médico e à benzedeira.





À noite, o calor infestou o lugar. A avó se viu perdida entre tantos bichos que se desvencilhavam das telas das janelas por orifícios carcomidos pelo tempo e entravam, sem convite, em toda a casa.





Apesar de irritada, a avó sorria feliz. O neto, comentou com o marido que se sentava e lutava contra os insetos, voltara à ativa.





- Saiu daquela tristeza assim? Do nada? Sem mais nem menos? O avô indagou e bebeu calmamente o café saído do fogo.





- Ele desapareceu dizendo que daria jeito em todos esses mosquitos!



*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 9 de julho de 2010.

domingo, 4 de julho de 2010

JOGO DO BRASIL

Detestava futebol, mas como os amigos, os conhecidos, os colegas de trabalho e de faculdade, os vizinhos, os pais, os irmãos, os parentes, as amantes e a cidade paravam para assistir aos jogos do Brasil transmitidos ao vivo da África do Sul, aceitou o convite para ir à casa do amigo do amigo do amigo.


 
- Num lugar desses – disse o amigo do amigo do amigo – a gente se entrosa rapidamente e você nem vai perceber os dois tempos passarem. Quando observar, estará de olho em alguma morena linda. Se brincar, até aprende as regras e quem sabe na final, pois vamos chegar sem dúvidas à final, você nos convida para assistir ao jogo na sua casa?


Comer e beber de graça com a possibilidade de se rodear de mulheres não era necessariamente algo ruim. O chefe liberou o pessoal mais cedo. Retirou o carro da garagem, atravessou a cidade para entrar numa chácara. Um telão moderno que não se ofuscava pela luz solar, mesas, cadeiras, bebidas, baldes de gelo, petiscos e, dentro da casa, variedade de guloseimas para os famintos.


Aperto de mãos, beijos, cumprimentos, sorrisos. Quando o hino nacional entoou seus primeiros acordes, as cento e cinqüenta pessoas riam, conversavam e trocavam impressões como se conhecessem há mais de trinta anos.


Apesar das lindas mulheres que acompanhavam maridos, namorados, amigos ou simplesmente transitavam em grupos em busca de aventuras, seus olhos grudaram em um rapaz de nariz grande, cabelos pretos compridos amarrados em rabo de cavalo. Perguntou a dois ou três colegas se o conheciam. Diante da negativa, assistiu aos lances simples, empolgando-se pelas probabilidades de gol, reclamava das faltas ignoradas pelo juiz omisso, insistia nos pênaltis. Um lance mais ousado o fazia pular da cadeira, mãos para cima em frenética agitação. Se a emoção parecia grande, puxava quem estivesse ao lado:


- Você viu aquilo? Você viu aquilo? Ai, meu Deus! Como um cara desses entra na seleção? Comprou a vaga?


O narigudo de cabelos pretos compridos amarrados em rabo de cavalo interagia bem com os desconhecidos e, provavelmente interessado em se tornar afável, caminhava entre os espectadores, duas garrafas de cerveja, enchendo os copos e trazendo, quando solicitado, pedaços de salsicha, carne, lingüiça, queijo, salame, presunto, pão de alho. Oitavo copo de cerveja. Achou que o narigudo trocava olhares com dois rapazes que ficaram em pé ao fundo.


- Esse negócio está me fazendo mal, disse, forçando as vistas sobre a cerveja. Quem diria que um dia iria me sentar entre tanta gente, bebendo e torcendo para um time de futebol?


De repente, o narrador destacou um brasileiro que cortara um, dois, três, dera um chapéu no quarto, enganara o quinto, pulara sobre o sexto, avançara sobre o gol, driblara o goleiro, mas antes de impulsionar a bola fora derrubado com um carrinho.


A platéia da chácara grunhiu em uníssono, alguns se levantaram, outros gritaram. O narigudo surgiu em sua frente, encheu o copo, dois espetinhos intercalados de queijo e carne bem passada. Um gordo, escorrendo de suor, berrou. Que saísse de sua frente.


As tentativas se repetiam. Os mais exaltados já xingavam não apenas o juiz que insistia em se fingir de cego às investidas do adversário, mas também o técnico que, sem capacidade de aprimorar a estratégia por meio de táticas acertadas, se limitava a gritar ao lado do campo.


Procurou o narigudo: um pouco de cerveja e mais um espeto de queijo com carne bem passada. Olhou para trás e os dois camaradas que, em pé, ora acompanhavam a partida, ora vigiavam zelosamente o estacionamento improvisado, também tinham desaparecido. Tanta mulher no mundo e tanta mulher aqui, maquinou, baixando a cabeça e sorrindo maliciosamente.


Quando o jogo estava próximo do fim, saiu em direção ao estacionamento e festejando: - Esse negócio de futebol é bom demais!


Desceu, esquerda, desceu novamente:


- Onde deixei meu carro?


Rádios, discos e micro-aparelhos de DVD tinham desaparecido em cinco automóveis, um dos quais pertencia a quem tanto relutara em assistir à seleção brasileira.

*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente - SP) de 2 de julho de 2010.