Quase sempre que conversa com leitores, Moacyr Scliar recorda quando, desajeitado, solicitou a Érico Veríssimo a leitura de um conto. O autor de “O tempo e o vento” o aconselhara a seguir na carreira. Estava no caminho certo. O engraçado, hoje recorda o consagrado Scliar – mais de oitenta livros, prêmios nacionais e internacionais, colaborador dos mais importantes veículos de comunicação, membro da Academia Brasileira de Letras –, ficou por conta da descoberta, ao fundo de uma gaveta, da última página do texto. Há bons escritores e boas pessoas, assegura Scliar. Érico Veríssimo, continua, encaixa-se nos dois grupos.
Enjoado de matérias dogmáticas, solicitei ao professor algumas leituras a fim de iniciar um projeto de iniciação científica. O historiador e sociólogo Wilton Carlos Lima da Silva jogou as fotocópias de dois capítulos de “História da Inteligência Brasileira” de autoria de um desconhecido: Wilson Martins.
Li os textos, mas por falta de tempo hábil não entramos no programa de iniciação científica. Procurei descobrir mais sobre sua vida e sua obra, refazendo a trajetória intelectual: bacharel em direito e doutor em Literatura, lecionara anos na Universidade Federal do Paraná, assinando colunas de críticas literárias em jornais importantes da época como “O Estado de São Paulo”. Depois, partira para os Estados Unidos onde consolidou a carreira acadêmica buscando bibliografia para escrever sua monumental obra.
Segui para o mestrado em história política. Apesar da escolha, continuei apaixonado pela Literatura de modo que, pouco tempo depois, estreei uma coluna em que publicava contos, crônicas e crítica literária.
Os leitores eventualmente enviavam-me mensagens eletrônicas. Comentavam as crônicas e os contos, mas o silêncio em torno das críticas literárias – e o silêncio, na maior parte das vezes, é mais importante do que o dito – incomodava-me sensivelmente.
Um dia minha mãe compartilhou o comentário de um jornalista: - Gosto de que seu filho escreve, mas não entendo os comentários sobre livros. Semanas depois, uma pediatra confidenciou-lhe que eu escrevia “difícil”. Escrever “difícil” tem duas acepções: ou não se sabe escrever, ou se escreve numa linguagem analítica, acessível a poucos. Decidi procurar quem admirava na crítica literária: Wilson Martins, Fabio Lucas e Antonio Candido.
A telefonista do jornal curitibano passou-me o número pedido. Uma voz do outro lado confirmou se tratar do escritório do crítico literário. Informei que morava no interior paulista e que gostaria de agendar um horário para conversar por telefone.
- É com ele que o senhor está falando.
Gaguejei, engoli em seco. Frio na barriga, moleza nas pernas, tremedeira nas mãos e nos braços. Pedi desculpas pela desarticulação, acrescentando que era uma honra indescritível dialogar com Wilson Martins. Após os primeiros choques e mais controlado, perguntei se, mesmo ocupado, poderia eventualmente ler meus textos. Deu-me o endereço.
- Será um prazer. O senhor pode me telefonar em quinze dias que emitirei meu parecer.
Angustiado, arrependi-me de enviar os textos. O crítico literário era conhecido pela franqueza impessoal, pela análise esmagadora, pela opinião fulminante e por não fazer concessões. Esperei uma, duas, três e, finalmente, na quarta semana, depois de relutar, repensar, esmorecer e me acovardar, tomei coragem e telefonei.
A secretária me atendeu e, em seguida, Wilson Martins. Disse que enviara um envelope com jornais nos quais estavam minhas críticas literárias. Ele as leu. Deveria continuar escrevendo que adquiriria segurança com o tempo e o ofício. Indaguei se poderia me indicar livro de análise literária. Não lembrava de nenhum no momento e, se lembrasse, não indicaria, pois esses “livros ensinam o que não sabem fazer”.
Senti-me o jovem Scliar ouvindo os incentivos de Érico Veríssimo. Assim como os do Scliar escritor iniciante, meus textos eram – e na maior parte continuam sendo – péssimos. Wilson Martins repetiu, sem saber, o comportamento do grande romancista gaúcho: incentivou alguém que se aventurava na crítica. Bom crítico e boa pessoa.
Wilson Martins faleceu no último fim de semana de janeiro deste ano, deixando dezenas de admiradores. Da última vez que conversamos ao telefone, aceitou me receber em seu apartamento. Viajaria para Curitiba no segundo semestre.
Vamos nos encontrar daqui a quatro ou cinco décadas. Quero ler o máximo de Literatura, filosofia, história, sociologia, antropologia. Para um grande intelectual, os festejos apenas acontecem ao discutirmos acaloradamente nossas paixões. Quando esse encontro acontecer, estarei armado de granadas poéticas, de revólveres dramatúrgicos, de espingardas de crônicas, de tanques de romances, de cavalos de contos fantásticos, de caneta e muito papel.
Até mais, Wilson Martins!
*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 12 de março de 2010.
sábado, 13 de março de 2010
sábado, 6 de março de 2010
SOBRENOME: CORAGEM
Quando começou a namorar, disse ao pai da menina que não se preocupasse. Se existia alguém cujo sobrenome era “coragem”, aquele alguém era ele. Jamais aconteceram cenas em que as perspectivas masculinas se fizessem indispensáveis, mas bastava mencionar perigo ou ameaça que prontamente intervinha:
- Se fosse eu? Ah... Se fosse eu, teria quebrado a cara dele.
Ou, na frente dos sogros e familiares:
- Deu sorte de não estar lá. Se estivesse, não sobrava nem poeira para contar história.
Provavelmente o fato mais hilariante aconteceu numa manhã de sábado quando dois assaltantes saíram correndo de uma loja no centro da cidade.
- Pena que eu não estava lá. Se estivesse...
Se na necessidade descobrimos a personalidade das pessoas, na necessidade o sogro descobriu a força do genro.
Pegou a namorada por volta das onze e meia do sábado, passeou na avenida, entrou numa pizzaria barata, comeu cinco ou seis fatias. Comprou uma rosa de uma ambulante, deu alguns trocados para o guardador de carros, jogou moedas no chapéu de um artista que se apresentava no semáforo, equilibrando pratos de metal em um ferro com formato de S, e antes das duas entrou, sempre acompanhado da namorada, numa danceteria.
A danceteria reunia jovens adeptos de barulho insuportável a que denominavam “putz-putz”. Assim que chegavam, tomavam algo para relaxar e saiam pulando, berrando, chocando-se nos outros freqüentadores.
Excepcionalmente naquela madrugada, o desânimo se jogara sobre a ala masculina de modo que os namorados se sentaram às mesas ao fundo. Irritadas pelo marasmo, as meninas se puseram a pular sozinhas na pista.
Alguns reclamavam do dia cansativo, do trabalho ou da impaciência de sair à noite. Outros, do carro sem ar condicionado, da implicância dos pais ou dos sogros, da falta de dinheiro para viajar. Uns terceiros, do estilo de vida, ora esboçando algo menos barulhento e mais sadio, ora exigindo mais agitação e menos preocupação. Falaram de futebol, de política, de religião, do asfalto, das batatinhas de conserva guardadas décadas seguidas no bar da dona Maria, das eleições, da copa do mundo, de mulheres.
Quando chegaram ao último tema, apenas Gustavo apresentava-se satisfeito. Por enquanto, o tédio se mantinha longe graças ao fogo da paixão e aos encontros semanais, geralmente aos sábados, jamais aos domingos.
- É um jeito de manter o fogo do amor, sorriu, bebendo um pouco mais. E você?
A fuga frustrada do assuntou despertou o interesse dos amigos. Sentando-se corretamente e aproximando as orelhas, ouviram a confidência da indecisão, da espera, da maturidade.
- Vamos deixar de enrolar, interrompeu um dos namorados extenuados. Você está firme ou não?
Firme? Claro que estava. Embora os pais da namorada dessem-lhe liberdade, o velho sentava entre eles para assistir à TV quando menos esperavam ou a sogra surgia ao portão para despachá-lo com uma boa noite cordial e admoestação do trabalho pela manhã.
Os amigos espalhariam a informação: motivo de chacota. Quando parou o carro em frente da casa, reteve a namorada pelo braço, encheu-lhe de beijos e, momento de desejo, decidiu uma noite mais prazerosa.
Desarrumou-lhe os cabelos, arrebentou-lhe o colar, mordeu o pescoço, arrancou a camisa e, preparando-se para rasgar o soutien, vislumbrou uma cabeça se movimentando no terreno vizinho.
Sentiu um frio na barriga, uma moleza nas pernas, o coração disparar, a boca secar, os braços tremerem levemente.
- Veste a blusa!
Desengatou o freio de mão, tentou engrenar a primeira e ligar o carro. O nervosismo o impediu de transformar pensamento em ação. Os olhos escorregaram novamente pelo terreno vizinho. A cabeça se aproximava a passos rápidos.
- Se abaixa. Se abaixa, gritou para a namorada, cobrindo-a com uma jaqueta incrivelmente puxada do banco traseiro. – Valei-me meu São Francisco!
Não conseguiu girar a chave na ignição. A moleza nas pernas se transformou em tremedeira. O homem – blusa de frio e toca preta – alcançara a calçada segurando qualquer coisa na mão esquerda, circundara o carro, batera no seu vidro.
- Pode levar tudo, tudo, mas deixe a gente vivo. Por favor, deixe a gente vivo.
- O que está acontecendo?
Na manhã seguinte, a família ria da história narrada detalhadamente pelo tio de Curitiba que, no terreno baldio, procurava umas peças de xadrez jogadas pelo filho e testemunhara a coragem esmagadora do namorado que, sem descer do carro, escondera as calças molhadas.
*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 5 de março de 2010.
- Se fosse eu? Ah... Se fosse eu, teria quebrado a cara dele.
Ou, na frente dos sogros e familiares:
- Deu sorte de não estar lá. Se estivesse, não sobrava nem poeira para contar história.
Provavelmente o fato mais hilariante aconteceu numa manhã de sábado quando dois assaltantes saíram correndo de uma loja no centro da cidade.
- Pena que eu não estava lá. Se estivesse...
Se na necessidade descobrimos a personalidade das pessoas, na necessidade o sogro descobriu a força do genro.
Pegou a namorada por volta das onze e meia do sábado, passeou na avenida, entrou numa pizzaria barata, comeu cinco ou seis fatias. Comprou uma rosa de uma ambulante, deu alguns trocados para o guardador de carros, jogou moedas no chapéu de um artista que se apresentava no semáforo, equilibrando pratos de metal em um ferro com formato de S, e antes das duas entrou, sempre acompanhado da namorada, numa danceteria.
A danceteria reunia jovens adeptos de barulho insuportável a que denominavam “putz-putz”. Assim que chegavam, tomavam algo para relaxar e saiam pulando, berrando, chocando-se nos outros freqüentadores.
Excepcionalmente naquela madrugada, o desânimo se jogara sobre a ala masculina de modo que os namorados se sentaram às mesas ao fundo. Irritadas pelo marasmo, as meninas se puseram a pular sozinhas na pista.
Alguns reclamavam do dia cansativo, do trabalho ou da impaciência de sair à noite. Outros, do carro sem ar condicionado, da implicância dos pais ou dos sogros, da falta de dinheiro para viajar. Uns terceiros, do estilo de vida, ora esboçando algo menos barulhento e mais sadio, ora exigindo mais agitação e menos preocupação. Falaram de futebol, de política, de religião, do asfalto, das batatinhas de conserva guardadas décadas seguidas no bar da dona Maria, das eleições, da copa do mundo, de mulheres.
Quando chegaram ao último tema, apenas Gustavo apresentava-se satisfeito. Por enquanto, o tédio se mantinha longe graças ao fogo da paixão e aos encontros semanais, geralmente aos sábados, jamais aos domingos.
- É um jeito de manter o fogo do amor, sorriu, bebendo um pouco mais. E você?
A fuga frustrada do assuntou despertou o interesse dos amigos. Sentando-se corretamente e aproximando as orelhas, ouviram a confidência da indecisão, da espera, da maturidade.
- Vamos deixar de enrolar, interrompeu um dos namorados extenuados. Você está firme ou não?
Firme? Claro que estava. Embora os pais da namorada dessem-lhe liberdade, o velho sentava entre eles para assistir à TV quando menos esperavam ou a sogra surgia ao portão para despachá-lo com uma boa noite cordial e admoestação do trabalho pela manhã.
Os amigos espalhariam a informação: motivo de chacota. Quando parou o carro em frente da casa, reteve a namorada pelo braço, encheu-lhe de beijos e, momento de desejo, decidiu uma noite mais prazerosa.
Desarrumou-lhe os cabelos, arrebentou-lhe o colar, mordeu o pescoço, arrancou a camisa e, preparando-se para rasgar o soutien, vislumbrou uma cabeça se movimentando no terreno vizinho.
Sentiu um frio na barriga, uma moleza nas pernas, o coração disparar, a boca secar, os braços tremerem levemente.
- Veste a blusa!
Desengatou o freio de mão, tentou engrenar a primeira e ligar o carro. O nervosismo o impediu de transformar pensamento em ação. Os olhos escorregaram novamente pelo terreno vizinho. A cabeça se aproximava a passos rápidos.
- Se abaixa. Se abaixa, gritou para a namorada, cobrindo-a com uma jaqueta incrivelmente puxada do banco traseiro. – Valei-me meu São Francisco!
Não conseguiu girar a chave na ignição. A moleza nas pernas se transformou em tremedeira. O homem – blusa de frio e toca preta – alcançara a calçada segurando qualquer coisa na mão esquerda, circundara o carro, batera no seu vidro.
- Pode levar tudo, tudo, mas deixe a gente vivo. Por favor, deixe a gente vivo.
- O que está acontecendo?
Na manhã seguinte, a família ria da história narrada detalhadamente pelo tio de Curitiba que, no terreno baldio, procurava umas peças de xadrez jogadas pelo filho e testemunhara a coragem esmagadora do namorado que, sem descer do carro, escondera as calças molhadas.
*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 5 de março de 2010.
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