sábado, 6 de março de 2010

SOBRENOME: CORAGEM

Quando começou a namorar, disse ao pai da menina que não se preocupasse. Se existia alguém cujo sobrenome era “coragem”, aquele alguém era ele. Jamais aconteceram cenas em que as perspectivas masculinas se fizessem indispensáveis, mas bastava mencionar perigo ou ameaça que prontamente intervinha:

- Se fosse eu? Ah... Se fosse eu, teria quebrado a cara dele.

Ou, na frente dos sogros e familiares:

- Deu sorte de não estar lá. Se estivesse, não sobrava nem poeira para contar história.

Provavelmente o fato mais hilariante aconteceu numa manhã de sábado quando dois assaltantes saíram correndo de uma loja no centro da cidade.

- Pena que eu não estava lá. Se estivesse...

Se na necessidade descobrimos a personalidade das pessoas, na necessidade o sogro descobriu a força do genro.

Pegou a namorada por volta das onze e meia do sábado, passeou na avenida, entrou numa pizzaria barata, comeu cinco ou seis fatias. Comprou uma rosa de uma ambulante, deu alguns trocados para o guardador de carros, jogou moedas no chapéu de um artista que se apresentava no semáforo, equilibrando pratos de metal em um ferro com formato de S, e antes das duas entrou, sempre acompanhado da namorada, numa danceteria.

A danceteria reunia jovens adeptos de barulho insuportável a que denominavam “putz-putz”. Assim que chegavam, tomavam algo para relaxar e saiam pulando, berrando, chocando-se nos outros freqüentadores.

Excepcionalmente naquela madrugada, o desânimo se jogara sobre a ala masculina de modo que os namorados se sentaram às mesas ao fundo. Irritadas pelo marasmo, as meninas se puseram a pular sozinhas na pista.

Alguns reclamavam do dia cansativo, do trabalho ou da impaciência de sair à noite. Outros, do carro sem ar condicionado, da implicância dos pais ou dos sogros, da falta de dinheiro para viajar. Uns terceiros, do estilo de vida, ora esboçando algo menos barulhento e mais sadio, ora exigindo mais agitação e menos preocupação. Falaram de futebol, de política, de religião, do asfalto, das batatinhas de conserva guardadas décadas seguidas no bar da dona Maria, das eleições, da copa do mundo, de mulheres.

Quando chegaram ao último tema, apenas Gustavo apresentava-se satisfeito. Por enquanto, o tédio se mantinha longe graças ao fogo da paixão e aos encontros semanais, geralmente aos sábados, jamais aos domingos.

- É um jeito de manter o fogo do amor, sorriu, bebendo um pouco mais. E você?

A fuga frustrada do assuntou despertou o interesse dos amigos. Sentando-se corretamente e aproximando as orelhas, ouviram a confidência da indecisão, da espera, da maturidade.

- Vamos deixar de enrolar, interrompeu um dos namorados extenuados. Você está firme ou não?

Firme? Claro que estava. Embora os pais da namorada dessem-lhe liberdade, o velho sentava entre eles para assistir à TV quando menos esperavam ou a sogra surgia ao portão para despachá-lo com uma boa noite cordial e admoestação do trabalho pela manhã.

Os amigos espalhariam a informação: motivo de chacota. Quando parou o carro em frente da casa, reteve a namorada pelo braço, encheu-lhe de beijos e, momento de desejo, decidiu uma noite mais prazerosa.

Desarrumou-lhe os cabelos, arrebentou-lhe o colar, mordeu o pescoço, arrancou a camisa e, preparando-se para rasgar o soutien, vislumbrou uma cabeça se movimentando no terreno vizinho.

Sentiu um frio na barriga, uma moleza nas pernas, o coração disparar, a boca secar, os braços tremerem levemente.

- Veste a blusa!

Desengatou o freio de mão, tentou engrenar a primeira e ligar o carro. O nervosismo o impediu de transformar pensamento em ação. Os olhos escorregaram novamente pelo terreno vizinho. A cabeça se aproximava a passos rápidos.

- Se abaixa. Se abaixa, gritou para a namorada, cobrindo-a com uma jaqueta incrivelmente puxada do banco traseiro. – Valei-me meu São Francisco!

Não conseguiu girar a chave na ignição. A moleza nas pernas se transformou em tremedeira. O homem – blusa de frio e toca preta – alcançara a calçada segurando qualquer coisa na mão esquerda, circundara o carro, batera no seu vidro.

- Pode levar tudo, tudo, mas deixe a gente vivo. Por favor, deixe a gente vivo.

- O que está acontecendo?

Na manhã seguinte, a família ria da história narrada detalhadamente pelo tio de Curitiba que, no terreno baldio, procurava umas peças de xadrez jogadas pelo filho e testemunhara a coragem esmagadora do namorado que, sem descer do carro, escondera as calças molhadas.


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 5 de março de 2010.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

ALCOVITEIRA

Mal estendeu a cadeira:

- Não falei? Aquilo é mulher direita? Só hoje é o terceiro que sai. Vai dizer que é encanador? Veio ontem. Que é eletricista? Três vezes na semana passada. Jardineiro? Nem jardim a casa tem. Deus me livre que não gosto de fofoca, mas que aí tem coisa. Coisa das grossas.

A vizinha de quem falava acenou do portão.

- E aquele moleque? Apontou para um menino sentado de pernas cruzadas no lado esquerdo do campo de futebol improvisado entre arbustos da praça.

A interlocutora olhou para trás, mas não o enxergou.

- Aquele lá, apontou, nervosa. Desde os seis anos a mãe tenta, mas de mim ninguém esconde nada. Ou você ainda não percebeu que ele não gosta da manga?

A interrogação surgiu no semblante. Encolheu os ombros. Mudou a disposição das sobrancelhas. A esquerda mais baixa do que a direita.

- Da fruta que ele gosta, eu, se pudesse, comia até o caroço.

As duas sorriram. Provavelmente continuaria a alfinetar o menino se, ensaiando passos silenciosos pela porta lateral da igreja, o clérigo contivesse as tosses e a maleta preta pouco discreta. Usava um chapéu velho, descoberto em uma das caixas do arquivo do antecessor.

- Não que eu goste de fofoca. Deus me livre! Eu odeio.

O reverendo entrou no carro, engatou a primeira e circundou a praça buzinando duas vezes ao vê-las sentadas. Retribuíram a gentileza, acenando e sorrindo como cobras no enigma iminente do golpe. O goleiro virou-se para igualmente acenar, mas antes que levantasse a mão a bola passou perto do pé esquerdo e mudou o placar. Discutiam a validade do gol.

- Detesto fofoca, mas sabe da última?

Olhou para os lados como a confidenciar um segredo.

- Soube que rouba o dinheiro da igreja. Quando do tempo do velho Bento, assim que os fiéis iam embora, entravam numa sala, contavam o apurado e escreviam tudo num livro de contabilidade. Depois que esse aí entrou, faz tudo sozinho. Não tem dinheiro para consertar o telhado, reformar o prédio, melhorar o chão, mudar a fiação, pintar os bancos ou trocar os canos que, mais de setenta anos, já estão nas últimas. Você acredita nisso? E esse carrão? Novo? Comprou com que dinheiro?

Uma viatura estacionou em frente à padaria. Um dos policiais sacou a caderneta de ocorrências. Uma senhora octogenária apareceu para relatar o sumiço do gato persa.

- E aquele rapaz? Aquele anotando qualquer coisa na prancheta? Fiquei sabendo que não agüenta nada. Só sai para fazer essas anotações sem importância. O primo do amigo da Virgínia me contou que ele é frouxo. Isso mesmo que você ouviu. Frouxo. Disse que estava numa fila do banco quando o bandido anunciou o assalto. Em vez de sacar o revólver e enfrentar a fera, correu para o banheiro e só saiu de lá quando estava tudo resolvido.

O policial olhou as duas senhoras e os garotos jogando bola, forçou as vistas numa janela aberta de um terceiro andar, voltou a espalhar os garranchos no papel oficial.

- Frouxo. Frouxo com F maiúsculo.

Um homem de músculos vistosos passou apressadamente do outro lado da rua. O menino do campo de futebol levantou-se, disfarçou e fitou o rapaz.

- Olha lá. Olha lá. Não te falei? O que eu disse? Nem disfarça. Se bem que um tipão daquele a gente tem que olhar mesmo. Onde mora? Povo estranho. Mais um bandido? Não tem cara de bandido, mas é bom ficar de olhos abertos. Que tamanho de peito! Dá até calor.

Voltou os olhos para a octogenária. O policial escutava o relato do desaparecimento, anotando displicentemente as características felinas. O sol dava os últimos acenos quando um féretro passou.

- Esse aí deve ser o Genésio, falou a mulher. Fazia hora extra. Acredita que ele, noventa anos, não queria morrer? Vai tarde. Por falar em tarde, vamos embora. Já está escurecendo. Você não tem que cuidar do jantar do marido e do banho dos filhos, hein?


*Publicado originalmente na coluna Ficções, caderno Tem!, do Oeste Notícias(Presidente Prudente – SP) de 26 de fevereiro de 2010.