sábado, 5 de dezembro de 2009

CYRO DOS ANJOS: O ESTILISTA DO SÉCULO XX

Embora os críticos literários apontem Machado de Assis como o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o século XX – considerado a Era dos Extremos pelo historiador Eric Hobsbawm – ficaria em segundo plano sem a presença de um escritor mineiro que fez da magnitude da linguagem questão de capacidade e distinção.

Alguns podem se lembrar naturalmente de Guimarães Rosa, Murilo Rubião, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Autran Dourado, Affonso Romano de Sant’Anna ou Carlos Drummond de Andrade. Apesar da contribuição de cada um deles, o século XX jamais seria o século XX, insisto, se Minas Gerais não tivesse concebido Cyro dos Anjos.

Autor de, entre outros livros, “O amanuense Belmiro” e “Abdias”, Cyro dos Anjos atingiu o ápice do refinamento lingüístico, deixando para trás o grande Machado de Assis. O crítico literário Wilson Martins rebateria as comparações e argumentaria contra a hipótese de um Machado de Assis “renovado”, “melhorado” ou “rejuvenescido”. Obviamente Machado e Cyro possuem personalidades e estilos diferentes. Entretanto, não se pode deixar de inventar um trajeto de elegância e concisão iniciado com Machado de Assis, passando por Cyro dos Anjos e buscando o fim em algum escritor que ainda aparecerá. A procura da perfeição para os que desejam esgotar as possibilidades semânticas – destacando-se entre os contemporâneos Dalton Trevisan – é cíclica: constituiu-se em recomeço permanente e, em alguns casos, patológicos.

Pouco (re)conhecido no âmbito acadêmico e fora dele, Cyro dos Anjos aparentemente reflete simpatias por protagonistas masculinos, silenciosos, acanhados ou socialmente distanciados. Narrando sempre em primeira pessoa, Belmiro e Abdias sofrem com o isolamento optativo ou forçado. A escolha do narrador em primeira pessoa colabora para realçar o sofrimento e alçar os diários de ambos à verossimilhança transfigurada pela confissão, pela confidência, pelo delírio, pela paixão, pela mágoa e pela esperança. Mágoa e esperança percebidas nas investidas (explícitas ou implícitas) de ambos os protagonistas sobre seus respectivos objetos de desejo e, tempo depois, no ridículo e na frustração causados pelo fracasso.

Tomando Minas Gerais como ambiente predominante de seus romances, Belmiro e Abdias são caracterizados como espíritos submissos, sem ação, fechados em mundos pessoais que dialogam com o exterior por meio da palavra escrita e sem ressonâncias. Belmiro mal consegue impor suas opiniões entre os amigos, pouco se sobressaindo no trabalho de escrevente público. Abdias desfruta de vida intelectual fria e sem chances de despontar no cenário regional ou nacional: administra um museu. Convidado para lecionar numa escola feminina coordenada por freiras francesas, enlaça-se com uma das alunas. Crente de que abandonará mulher e filhos para usufruir de uma nova aventura, cai no ostracismo quando refutado pela discente numa dança em um baile bastante concorrido. Como amá-la inesperadamente? Como acreditar num amor ilusório? Como trocar de vidas e, trocando de vidas, enfrentar desafios anteriormente considerados audaciosos? Um covarde se revestiria de coragem?

Ao término das desilusões amorosas e dos malogros cotidianos, Belmiro e Abdias seguem rotineiramente o trajeto sem sobressaltos, sem desesperos e sem instabilidades. Belmiro e Abdias retratariam o homem cético, ansioso pela aceitação no grupo e, como conseqüência desta, a aceitação de si mesmo. No entanto, o ceticismo – estável e programado – se sobrepõe aos desejos e aos desígnios inesperados, percorrendo o caminho paralelo que, tão próximo e tão premente, espera o momento adequado para se perder, se misturar e se confundir, alterando vida/realidade em morte/sonho.

Como amplamente mencionado, a capacidade lingüística e a elegância sintática de Cyro dos Anjos possui uma qualidade singular: a inefabilidade. Embora alguns tentem, poucos são os leitores e estudiosos que consegue analisar eficientemente o escritor mineiro – e infelizmente eu não sou um deles – descrevendo pormenorizadamente e explicando pedagogicamente quais artifícios, métodos e teorias foram utilizados na constituição da escrita.

O leitor - que se interesse pela maturidade da escrita e deseje um livro indiscutivelmente bem elaborado, personagens bem compostos, enredos rotineiros e tensão cética e estável – poderá procurar as edições recentes de ambos os títulos, lançadas impecavelmente pela editora Globo.

Sem sombra de dúvida, Cyro dos Anjos é o escritor que mais se destacou na estilística do texto: um dos maiores romancistas do século XX.


*Publicado originalmente na Série Especial Dez Escritores Contemporâneos do Oeste Notícias (Presidente Prudente – SP) de 4 de dezembro de 2009.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

FOGO BRANDO

Mudara-me para Tarumã deixando amigos na cidade em que concluíra a graduação e da qual saíra, no começo do ano, para assumir uma vaga de escriturário num banco da cidade paulista.

Não demorou para simpatizar com uma família que morava na frente da agência e, semanas depois, namorar a filha mais nova, cabelos pretos lisos e compridos, que propositalmente aparecia nas horas impróprias – em que trabalhava como caixa para diminuir a fila – a fim de depositar um centavo.

O comportamento detestável descambou numa espera ansiosa de modo que, sempre que a fila crescia em dias posteriores aos domingos ou aos feriados, meus olhos passeavam pelas faces em busca de uma franja de cabelos pretos ao fim da qual vislumbraria o sorriso cativante harmoniosamente desenhado para suprimir a inexpressividade dos olhos.

Terminava de preencher alguns formulários no reservado quando o gerente acenou-me. Cinco amigos vestidos de roupas de turistas lotando os assentos destinados aos clientes. Quarta-feira que antecedia o feriado de Corpus Christi parecia dia ideal, segundo meus amigos, para me fazerem uma visita surpresa e conhecerem a tão famigerada cidade.

Tentei acomodá-los em minha casa de quarto e sala, mas a euforia e a simplicidade impediam-nos de se darem conta de que dormiriam praticamente uns sobre os outros. Apenas um ponto me preocupava: os pais de Sara.

Prometera-lhes um jantar em casa. Os parentes de Florianópolis chegariam e os pais, ansiosos por apresentar o bom partido, pretendiam mostrar que eu tinha vida modesta, mas era independente e possuía um futuro tranqüilo para sustentar a filha.

Telefonei para um restaurante próximo, encomendei alguns salgadinhos, refrigerantes e cinco garrafas de vinho gaúcho. Faríamos uma reunião informal, os pais de Sara conheceriam meus amigos, meus amigos conheceriam os pais de Sara e os parentes compartilhariam momentos agradáveis.

- Tenho uma coisinha especial para esse velho, confidenciou-me André, sorrindo maliciosamente.

Adverti que não poderia aprontar barbaridades, pois o pai dela mostrava-se sério quase todo o tempo. De dentro de uma mala, André retirou cuidadosamente um barril engraçado com uma torneira.

- Trouxe cachaça. Vou colocar aqui em cima e, quem quiser, é só abrir a torneirinha e beber. Cachaça de João Pessoa. Da boa.

Meu sogro chegou antes do horário combinado. Deu-me as chaves para pegar a filha, a esposa e os parentes. Meia hora depois estacionava em frente da casa, fechava o carro, ativava o alarme, olhava o lustre dos sapatos e tomava a frente da comitiva abraçado a Sara.

Passamos rapidamente pelo pequeno jardim coletivo, abrimos a porta e, pulando nos sofás, o pai de Sara e meus cinco companheiros, cantando, berrando e sorrindo incontrolavelmente, entoavam músicas de serenata.

Ao avistar a esposa, engatinhou, derrubou meus livros no chão ao bater na mesinha de centro:

- Eu não tive culpa, meu bem. Eu não tive culpa. Eles disseram que a cachaça era boa, mas eu não sabia que era tão boa assim. Tomei só dois dedinhos...

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 3 de dezembro de 2009.