O cinto de segurança apertava o pescoço. A parte superior parecia enforcá-lo a cada curva acentuada ou freada brusca. Forçou bem os olhos sonolentos na estrada noturna, verificou a falta de bases de fiscalização ou de carros policiais disfarçados atrás de arbustos, árvores ou cercas. Tirou o cinto.
Uma tranqüilidade confortável rapidamente invadiu-lhe o espírito. Esticou naturalmente as pernas, abriu os olhos com dificuldade três ou quatro vezes, segurou o volante com uma mão enquanto esticava o braço para se espreguiçar e procurar alguma lata de refrigerante possivelmente jogada embaixo do banco do carona ou enfiada no suporte bagunçado.
Uma árvore de galhos secos tirou uma imagem do fundo da memória: o medo. Lembrava quando assistira a algum filme de terror e, no meio da noite, gritara desesperado ao pensar que o galho invadiria seu quarto. O pai reclamou porque assistira ao filme, a mãe nem levantou da cama, a avó veio consolá-lo, acariciando os cabelos até que se acalmasse e dormisse. Pela manhã, avó e neto olhavam os galhos grandes, cujas pontas frágeis causaram tanto pânico.
Uma moto ultrapassando. O motociclista gesticulava exasperadamente. Erguia o dedo anular com ênfase. Não se fazem mais motoqueiros como antigamente, pensou enquanto encolhia e voltava a esticar as pernas, acomodando a cabeça no encosto da poltrona do carro ao mesmo tempo em que retornava à quinta marcha, olhos satisfeitos, ponteiro pouco mais de cento e dez quilômetros por hora.
Lembrava então da primeira vez que ligara um carro: o pai dissera-lhe para deixar o câmbio em ponto morto, acelerando vagarosamente para esquentar o motor e avivar as articulações do carro. Obviamente um automóvel não era uma pessoa para possuir articulações, mas o pai falava desse jeito: articulações. Ele ligou o carro e acelerava calmamente. Ficasse assim três minutos enquanto entrava em casa para pegar a carteira de habilitação, documento do carro e alguns trocados para abastecerem a máquina, comerem cachorro-quente e tomarem Coca-Cola. Três minutos pareciam prolongarem-se por cinco horas. Olhou bem o câmbio. Como mesmo engatava a primeira? Assim, para frente?
A surra do pai deixara-o sete dias na cama. A avó fazia companhia na parte da tarde, depois que os desenhos da manhã acabavam. Contava-lhe histórias, anedotas, causos. Quantos causos. Impossível colocar todos os causos num livro. Mesmo que o livro tivesse mais de cinco mil páginas. Carro sem seguro. A poupança do pai pagou o carrinho de pipocas do vizinho que trabalhava na frente de casa, a bicicleta de um menino, o hospital, os remédios e os curativos de dona Fran, que voltava cheia de sacolas do supermercado.
Se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. De novo, sim, falava se acomodando melhor depois de um carro que vinha em sentido contrário quase sair da pista para não colidir. Que tipo de motoristas se fazem hoje em dia, se questionava.
Se pudesse criar tempo, voltar no tempo, parar o tempo...
*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 13 de agosto de 2009.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Uma estrela no céu
Para Zé Poeta, pai de Tábata (em memória)
Minha ex-namorada e amiga Luciene convidou-me mais ou menos em 2008 para participar da formatura. Concluiria o bacharelado em química e telefonava-me para que não assumisse nenhum compromisso em 2009 de modo que, em janeiro deste ano, os pais e eu viajamos para Indaiatuba.
Saímos no sábado de madrugada, chegamos na hora do almoço, passamos a tarde na casa da tia e à noite, depois de esperar sua chegada do salão de beleza, partimos para Sorocaba, onde ela estudava. Ficamos até o fim do baile. Cheguei às seis horas da manhã e às oito e meia o pai dela já gritava apressando-nos para tomarmos café, almoçarmos e pegarmos o caminho de volta para casa.
Alguém me perguntou se minha namorada não sentia ciúmes. Luciene havia sido minha namorada, agora era minha amiga, convidara-me para as festividades e eu percorrera quase quinhentos quilômetros para isso. Falei que não tinha problemas. O alguém insistiu, perguntando por que gostava de Luciene a ponto de deixar meus afazeres.
Todas as mulheres – e também os homens – nascem iguais. As mulheres são estrelas. Nascem como estrelas do mar: escondidas, na lama, na escuridão, insignificantes, feias. As estrelas do mar têm a possibilidade de evoluir e se transformarem em estrelas do céu ocupando um lugar essencial, de grande visibilidade, cheias de luz para iluminar os caminhos mais diferentes e inspirar idéias. Tão importantes quanto o ar, a água, a comida, a poesia, a Literatura ou a música. Lindas, fabulosas, indescritíveis.
A maioria das mulheres nasce estrela do mar. Sempre será apenas estrela do mar. Entretanto, algumas têm a capacidade de mudar o rumo das próprias vidas, de transformar as situações mais melancólicas num espetáculo de beleza extraordinária, poética e musical: essas são as que abandonam a escuridão do mar e se transportam elegantemente ao céu. Luciene, Adriana (minha namorada), minha mãe, Dona Laura, Dona Isaura e dezenas de mulheres são estrelas do céu.
Semanas atrás meu pai entrou na cozinha nos comunicando da morte de Tábata, filha de Zé Poeta. Lembrei-me que tínhamos ido doar sangue para que ela fizesse uma cirurgia. Pensei em prestar solidariedade ao Zé Poeta, mas as circunstâncias me impediram de encontrá-lo. Pretendia dizer-lhe palavras de consolo, de conforto, de ternura, porém percebi que estava errado. Por que ficar triste?
Ao assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, o escritor Guimarães Rosa disse que as pessoas não morrem. Elas ficam encantadas. Observando por esse ângulo, encantadas ficam as imagens, as falas, os momentos e as aventuras encenadas por pais e filhos. Quando, por qualquer motivo, pais e filhos são obrigados a se separarem, apenas as lembranças boas, os momentos felizes, as situações engraçadas, as broncas desnecessárias, a desobediência consciente, os suspiros inconformados, a convivência simples e os instantes marcantes se fincam na memória e são eternizados.
Pais e filhos passarão o próximo domingo comemorando o dia dos pais. Como geralmente fazemos em minha casa, minha namorada e minha filha virão de Paraguaçu, meu irmão provavelmente trará a namorada dele, meu outro irmão dormirá, minha mãe se enfiará prazerosamente na cozinha. Como pais e filhos que ainda não estão separados, festejaremos o dia dos pais na casa cujas portas sempre estão abertas para você, Zé Poeta.
Meus irmãos e eu poderemos presentear meu pai com um livro, um disco ou um filme. Um livro, um disco ou um filme são presentes que mais cedo ou mais tarde serão lançados no esquecimento. O pai dificilmente lembrará o presente e os filhos jamais imaginarão que presentearam o pai. Bons presentes são os utilizados todos os dias. E, nesse ponto, fico feliz por você, Zé Poeta. Porque você é um dos poucos que, na noite do dia dos pais, poderá olhar orgulhoso para cima e vislumbrar a estrela Tábata, a estrela que você ajudou a fixar permanentemente no céu. A estrela que com magnitude, singularidade, beleza e ousadia ilumina o universo e nos mostra os trajetos da perseverança, da persistência, da alegria, do amor.
*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 6 de agosto de 2009.
Minha ex-namorada e amiga Luciene convidou-me mais ou menos em 2008 para participar da formatura. Concluiria o bacharelado em química e telefonava-me para que não assumisse nenhum compromisso em 2009 de modo que, em janeiro deste ano, os pais e eu viajamos para Indaiatuba.
Saímos no sábado de madrugada, chegamos na hora do almoço, passamos a tarde na casa da tia e à noite, depois de esperar sua chegada do salão de beleza, partimos para Sorocaba, onde ela estudava. Ficamos até o fim do baile. Cheguei às seis horas da manhã e às oito e meia o pai dela já gritava apressando-nos para tomarmos café, almoçarmos e pegarmos o caminho de volta para casa.
Alguém me perguntou se minha namorada não sentia ciúmes. Luciene havia sido minha namorada, agora era minha amiga, convidara-me para as festividades e eu percorrera quase quinhentos quilômetros para isso. Falei que não tinha problemas. O alguém insistiu, perguntando por que gostava de Luciene a ponto de deixar meus afazeres.
Todas as mulheres – e também os homens – nascem iguais. As mulheres são estrelas. Nascem como estrelas do mar: escondidas, na lama, na escuridão, insignificantes, feias. As estrelas do mar têm a possibilidade de evoluir e se transformarem em estrelas do céu ocupando um lugar essencial, de grande visibilidade, cheias de luz para iluminar os caminhos mais diferentes e inspirar idéias. Tão importantes quanto o ar, a água, a comida, a poesia, a Literatura ou a música. Lindas, fabulosas, indescritíveis.
A maioria das mulheres nasce estrela do mar. Sempre será apenas estrela do mar. Entretanto, algumas têm a capacidade de mudar o rumo das próprias vidas, de transformar as situações mais melancólicas num espetáculo de beleza extraordinária, poética e musical: essas são as que abandonam a escuridão do mar e se transportam elegantemente ao céu. Luciene, Adriana (minha namorada), minha mãe, Dona Laura, Dona Isaura e dezenas de mulheres são estrelas do céu.
Semanas atrás meu pai entrou na cozinha nos comunicando da morte de Tábata, filha de Zé Poeta. Lembrei-me que tínhamos ido doar sangue para que ela fizesse uma cirurgia. Pensei em prestar solidariedade ao Zé Poeta, mas as circunstâncias me impediram de encontrá-lo. Pretendia dizer-lhe palavras de consolo, de conforto, de ternura, porém percebi que estava errado. Por que ficar triste?
Ao assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, o escritor Guimarães Rosa disse que as pessoas não morrem. Elas ficam encantadas. Observando por esse ângulo, encantadas ficam as imagens, as falas, os momentos e as aventuras encenadas por pais e filhos. Quando, por qualquer motivo, pais e filhos são obrigados a se separarem, apenas as lembranças boas, os momentos felizes, as situações engraçadas, as broncas desnecessárias, a desobediência consciente, os suspiros inconformados, a convivência simples e os instantes marcantes se fincam na memória e são eternizados.
Pais e filhos passarão o próximo domingo comemorando o dia dos pais. Como geralmente fazemos em minha casa, minha namorada e minha filha virão de Paraguaçu, meu irmão provavelmente trará a namorada dele, meu outro irmão dormirá, minha mãe se enfiará prazerosamente na cozinha. Como pais e filhos que ainda não estão separados, festejaremos o dia dos pais na casa cujas portas sempre estão abertas para você, Zé Poeta.
Meus irmãos e eu poderemos presentear meu pai com um livro, um disco ou um filme. Um livro, um disco ou um filme são presentes que mais cedo ou mais tarde serão lançados no esquecimento. O pai dificilmente lembrará o presente e os filhos jamais imaginarão que presentearam o pai. Bons presentes são os utilizados todos os dias. E, nesse ponto, fico feliz por você, Zé Poeta. Porque você é um dos poucos que, na noite do dia dos pais, poderá olhar orgulhoso para cima e vislumbrar a estrela Tábata, a estrela que você ajudou a fixar permanentemente no céu. A estrela que com magnitude, singularidade, beleza e ousadia ilumina o universo e nos mostra os trajetos da perseverança, da persistência, da alegria, do amor.
*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 6 de agosto de 2009.
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