quinta-feira, 25 de junho de 2009

Farmácia nova

Transitara pelo ramo de alimentos, de construção e de prestação de serviços – uma pequena empresa de encanadores e eletricistas que ajudavam mulheres sozinhas – mas não se identificara. A euforia inicial se extinguia. Problemas, altos impostos e mão-de-obra desqualificada.

Lendo uma dessas revistas de pequenas empresas, interessou-se pelo segmento de farmácia e, comparando-o aos demais, achou que poderia desenvolver bem a atividade. Uma auxiliar de enfermagem para curativos, suturas, machucados e injeções.

Alugou o térreo de um prédio de dois andares, mudou a fachada, reformou a parte interna, construiu um banheiro razoável e uma cozinha apertada onde cabiam um fogão de duas bocas, um filtro e um frigobar.

Bem conhecido, resolveu não promover inauguração nem investir em publicidade. A melhor publicidade seria a de boca em boca pelos transeuntes que, vendo-o atrás do balcão, entrariam para comprar nem que fosse um comprimido para dor de cabeça.

A auxiliar de enfermagem chegou cinco minutos antes da abertura, acomodou pertences em cima de um banquinho, verificou se o rabo-de-cavalo estava bem preso assim como forçou os dentes para remover eventuais resquícios de pão.

Ninguém entrou durante toda a segunda-feira. Terça-feira? Vazia. Quarta – feira, nem pedido de informações. Quinta-feira, a auxiliar levara algumas palavras-cruzadas, um vidro de esmalte e cartas de quiromancia. Sexta-feira, pensou em mudar o letreiro, colocar uma caixa de som anunciando os produtos. A funcionária, chegara pouco depois das dez horas, advertiu que o conselho de farmácia proibia aquela espécie de iniciativa.

No sábado, abriu antes das seis da manhã, varreu a calçada, lixo em sacos amarelos, recolhido ao fundo do estabelecimento, jogou um pouco de água na rua, quis acabar com os pombos. A ajudante entrou, sacou um novelo de lã e pôs-se a tricotar pacientemente.

Almoçou pouco, não conseguiu cochilar e se arrependia de um negócio que também desaguaria no fracasso. De volta ao trabalho, pensou que poderia abrir a farmácia perto da igreja – cultos três vezes por semana – ao lado da escola – quem sabe alguma mãe buscasse o filho e comprasse o remédio da avó enquanto esperava o sinal – ou da assistência social – dezenas de pessoas entrando e saindo todos os dias.

O fim do movimento intenso no comércio coincidiu com o desespero do pagamento do salário. Além dele, insalubridade, cesta básica, vale-refeição, vale-transporte e horas extras dos fins de semana. Se ninguém entrasse em duas semanas, escolheria nova empreitada para investir. Não gastaria com agências e materiais de publicidade, não aplicaria um centavo em outdoors, jornais e rádios.

Parecia completamente decidido a se livrar da nova empresa na primeira semana. Olhava os valores dispostos no papel. Dinheiro jogado fora. Reclamaria, xingaria, esbravejaria. Pensava nisso quando parou à porta, leu com dificuldade o letreiro e entrou.

Sorriu de animação, passou os olhos na auxiliar que escondeu seus entretenimentos. Avançou para mulher por um lado enquanto a auxiliar, pelo outro, colocava-se à saída.

- O senhor vende remédio para febre de cachorro?

Tomou-lhe o papel, enrolou um frasco, cobrou vinte reais. Perguntaria da eficácia do medicamento, porém preferiu se calar diante do misto de prazer e demonismo estampado nas faces do proprietário, erguendo efusivamente a assistente, também amedrontada.

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 25 de junho de 2009.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O cunhado

Rapaz de boa índole: ajudava a sogra, pescava com o sogro e até levava o cachorro para passear pelos arredores nos fins de semana. Agüentava tudo, menos o irmão da esposa.

O cunhado se achava inteligente, falava reiteradamente de viagens, de pessoas ilustres com quem jantava, de lugares caros e badalados que freqüentava. Se não o conhecesse, alguém engoliria o viajado, culto, inteligente, bem versado e rico que se propagava.

Churrasco entre familiares, falou mais de quarenta minutos sobre fantasiosa viagem à Europa.

- Pois é, visitei a casa do Papa, passei no museu do Louvre e na torre Eiffel, no palácio da rainha da Inglaterra. Ajoelhei no túmulo de Nietzsche e de Goethe. Comi num restaurante em frente da casa do Miguel de Cervantes e, no palácio de campo onde Thomas Mann e Hermann Hesse passavam o verão, conversei mais de duas horas com um historiadorzinho inglês... Como era mesmo o nome dele? Peter? Peter Borca? Peter Corp?

- Peter Burke, complementou um estudante de história, servindo-se de um pedaço de lingüiça, completando o copo de Coca-Cola.

- Isso mesmo! Falei com esse cara.

- Mas, questionava a fim de comprometê-lo, se você não fala inglês, como você conversou com um historiador inglês?

A máscara do cunhado ruiria se o estudante de história, vaidade intelectual inerente, não interviesse e explicasse que Peter Burke falava português. Era casado com uma brasileira.

Visitar a casa do Papa e tagarelar com um intelectual? Perdeu o fim de semana pensando numa maneira de encrencá-lo. Por mais que quisesse, idéias não lhe surgiam. Dormiu no domingo resmungando: - Nada como um dia atrás do outro. Deus escreve certo por linhas tortas. É só esperar.

Como se os pedidos secretos transgredissem os ventos e arrebentassem as nuvens, surgiram oportunidades de constrangimento.

A primeira na capital do Mato Grosso do Sul. O sogro precisava de pessoas de confiança para averiguar a separação de terras e bois do inventário do pai. Ele e o cunhado seguiram para Campo Grande. Tomaram desvios errados e perderam mais tempo do que o normal, entrando na cidade pela periferia. Passava das dez da noite. De longe o cunhado vislumbrou um corpo esguio, alto, pernas lisas. Percebendo a empolgação, silenciou sobre quem se aproximava.

O cunhado baixou o vidro. Perguntou se a moça estava bem. Ela respondeu positivamente. Ele levantou o vidro, esfregou as mãos e falou que ela disse que estava tudo bem. Fez mais quatro perguntas, sempre fechando o vidro e as repetindo ao motorista. A quinta o amedrontou. Em tom animado, qual o nome dela? A meretriz: - João Cláudio.

- Vamos embora, vamos embora! É um homem!

Na volta, conversaram com o velho e receberam a missão de se deslocarem a São Paulo. Providenciariam documentos para liberar os bens no Mato Grosso do Sul.

Como morara alguns anos em São Paulo antes de casar, conhecia bem a região do Largo do São Mateus, entre o terminal rodoviário e o acesso a Santo André. Um inferninho masculino chamado “Piu-piu” escondia-se numa fachada discreta.

Estacionou na frente de um bar:

- Vês o fervo? Uma boate. Boate das boas. Não precisa conversar. É chegar, passar a mão, beijar, acariciar o pescoço.

Sentou-se, tomaria uísque. Aproveitasse a noite. Assim que entrou, acionou um cronômetro: - Em dez minutos ele volta, falou para o garçom.

Engoliu o resto do uísque, pediu uma dose de conhaque. Finalizava o segundo copo quando, gritando, tropeçando, caindo, camisa aberta e sapato esquerdo perdido, despontou do fundo da casa de espetáculo. Olhou o relógio: sete minutos e dezesseis segundos. O garçom piscou, fingiu limpar a mesa.

- Estava tudo bem. Entrei, vi aquela mulherada dançando, pulando, se abraçando. Pulei no meio. Beijei, abracei uma, mordi o pescoço de outra. Já partia para a quarta. Aí percebi que se tratava de homem. Tudo homem. Tudo homem vestido de mulher!

Levantou-se, jogou uma nota de dez reais na mesa.

- Como pode? Tão inteligente, elegante e viajado? Ainda não aprendeu a diferenciar um homem de uma mulher?

O bar inteiro caiu na gargalhada, apontando para o cunhado arrasado, escondendo-se envergonhado no carro.

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 18 de junho de 2009.