sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ladrão de música clássica

O delegado sentou. Olhou a relógio quase escondido na última prateleira de uma estante e, como de costume, chamou o auxiliar.

- Estou aqui, chefe.

- O que temos para hoje?

- A noite foi tranqüila, apenas um ladrão que pulou o muro da casa do dr. Machado para roubar alguns discos. Levou somente quatro. Quando a viatura parou, não correu nem resistiu à prisão.

- Mas esse cara é louco? Pular o muro do dr. Machado? Não sei como não levou um tiro!

- Não levou porque não tinha ninguém em casa.

O delegado ingeriu rapidamente o café, tirou o paletó, afrouxou a gravata e encaminhou-se para as celas. O condicionador de ar quebrado e o calor impeliam-no a desejar roupas mais leves.

Sentado na ponta de uma cama de jornais improvisada, o ladrão levantou-se tão logo viu o volumoso homem entrando pelo corredor. Ou o medo ou o constrangimento do furto causavam-lhe receio. Os olhos iam e vinham de um a outro lado das grades inferiores da jaula.

O delegado suspirou forte, olhou bem as roupas simples e o jeito do matuto.

- Desde quando você rouba, filho?

- Ontem, a primeira vez. A voz saía entrecortada e baixa.

- Quem anda por maus caminhos acaba se lascando. Você pulou um muro de mais de três metros de altura, entrou na casa do homem mais rico da cidade, teve a pachorra de escolher o que ia roubar e pegou apenas quatro discos?

- Isso mesmo, doutor.

- Doutor eu não sou. Não fiz doutorado, respondeu o delegado, sorrindo e quebrando o gelo da conversa que pretendia informal. Rapaz muito educado e silencioso. – Abre a cela aqui. Vamos conversar na minha sala. Lá pelo menos tem ventilador. Então mate minha curiosidade, filho. Você entrou na casa do dr. Machado, forçou a porta para roubar quatro discos? Por que não roubou uma caixa inteira?

- As portas estavam destrancadas.

O delegado procurou o boletim de ocorrência. Portas destrancadas. Ele não as forçara. O calor o forçava agora a desabotoar os pulsos das mangas compridas, arregaçando-as à altura dos cotovelos.

- Por que você roubou quatro discos? Achou que venderiam mais para comprar droga?

- Não. Peguei-os porque precisava exatamente daqueles quatro.

- Precisava? Como assim precisava?

- Toco piano. Perdi o emprego oito meses atrás. Sem salário, não pude continuar minhas aulas. Um colega me deu uma cópia de método de música. Nela estão Chopin e Schumann. Precisava desses dois compositores. Depois devolveria os discos.

Um riso largo da autoridade policial rasgou a delegacia, despertando a atenção dos funcionários que davam plantão naquele domingo de manhã. Da sala vizinha trouxe um teclado de três oitavos embaixo do braço.

- Toque alguma coisa de Chopin. Quero ver e ouvir.

Deitou-se no sofá. O pianista advertiu que provavelmente não sairia o mesmo som, a mesma qualidade, o mesmo impacto.

Mesmo impacto verás no teu lombo caso não consigas executar Chopin, pensava de olhos fechados, ensaiando uma madorna.

Apontou a mesa do delegado. Fixar bem o teclado para não fugir.

- Sinta-se à vontade, filho. A casa é nossa.

Depois da instalação, estalou os dedos, baixou a cabeça, fechou e abriu os olhos em concentração. As mãos baixaram sobre o instrumento, o delegado sentou-se, ficou de pé, sentou-se novamente. Em dezoito minutos de execução seus pensamentos transbordavam lembranças diversas.

O auxiliar entrou na sala.

- Onde estão os discos que ele pegou?

Tempos depois, no teatro municipal, o pianista agradecia com gestos e palavras ao delegado e ao dr. Machado, que dividiam o mesmo camarote.

- Afinal, perguntava o delegado ao dr. Machado, não valeu perdoar um crime como este?

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 11 de junho de 2009.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vendedor de carros

O caso se deu em um dos estacionamentos de carros usados. Carros bem usados, diga-se de passagem. Tão usados que a avó, sem entender nada nem de carros, nem de motocicletas, nem de bicicletas advertiu o neto que trabalhava diuturnamente, economizava todos os dias e sonhava em desfilar no veículo no sábado à noite. Suspirava pensando nos olhares curiosos de amigos, conhecidos, desconhecidos e transeuntes sobre o condutor, a acompanhante e o carro.

Ignorando os conselhos da avó, optou por uma revendedora próxima de um instituto de línguas. Como a ansiedade o sufocasse e o vendedor o pressionasse, ameaçando negociar o produto com o primeiro interessado, pagou à vista.

- Mas você comprou um carro de noite? Perguntava o avô, olhos esbugalhados, voz contrariada. Não se pode comprar carro à noite.

Irritado com a intromissão, fechou-se no quarto. De quem era o carro? Quem pagara por ele? Quem iria mantê-lo? Comprava carro de noite, de manhã, de tarde e, se abusasse, de madrugada. Qual o problema?

O problema surgiu assim que a claridade que antecede o sol invadiu a pequena garagem, mostrando a pintura riscada na porta do lado do motorista, o vidro traseiro levemente trincado, a falta de pneu sobressalente, de macaco, de limpador de pára-brisas, os faróis da frente que não acendiam, os de trás que nem existiam, o teto queimado e o estofado do banco de trás rasgado.

O avô o flagrou reclamando sozinho. Os olhos de ambos se cruzaram.

Pensou em devolver o automóvel, mas a devolução imediata representaria fracasso e perda de respeito. O avô, a avó, a namorada, os amigos e alguns vizinhos curiosos comentariam exaustivamente a situação. Resgatou o resto do dinheiro da poupança e reformou as partes complicadas, deixando a pintura para outra ocasião.

Como trabalhasse na cidade vizinha, viajaria duas vezes por semana, alternando oferecimentos e recebimentos de carona. Viajaria se o radiador não estourasse na primeira noite de sábado que saíra com a namorada. O valor de guincho, radiador novo, troca de algumas peças e conserto do capô compraria duas bicicletas ou possibilitaria três dias em Florianópolis com acompanhante.

Amanheceu terça-feira à porta do estacionamento. Experiente nas ciências da ladroagem e nas práticas do ludíbrio, o vendedor desdenhou dos argumentos alegando descaradamente que, se não funcionava, o cliente tinha provocado danos ao automóvel. Evidenciou seu descontentamento e falou que o carro vendido estava totalmente sucateado.

- Se o carro está ruim, não posso fazer nada. O que posso fazer é comprá-lo de volta.

Inicialmente contente com a oferta, a fúria subiu pelas têmporas ao ser informado do valor: oito mil reais.

- Mas eu comprei por quinze mil.

- Comprar, comprou. Só que você o danificou e vou precisar da diferença para consertá-lo. É pegar ou largar!

A voz paciente e o temperamento calmo fizeram o vendedor acreditar que ele caminhava para ir embora fracassado. Depois de remexer no porta-malas, o cliente, espingarda doze engatilhada:

- Você sabe correr?

*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 4 de junho de 2009.