sábado, 5 de julho de 2008

Luta humanitária

A libertação da ex-candidata a presidência da Colômbia Ingrid Betancourt é indiscutivelmente um motivo de comemoração. Ninguém deve ser privado da liberdade sem passar pelo processo legal, dirigido por um tribunal que não seja de exceção.

Interessantes os movimentos instalados mundo afora que gritavam, pediam e lutavam de todas as maneiras pela libertação da prisioneira que passou anos nas matas, correndo risco de saúde, segundo informações de reféns libertados. E agora? O que acontece aos demais prisioneiros depois da libertação da refém mais ilustre e que ocupava mais espaço na mídia?

Um ponto lamentável neste episódio é o foco do jornalismo nacional sobre a vida e a libertação de senadora colombiana. Não é engraçado que a mídia de nosso país não retrate, ignore ou mesmo despreze os sequestros, a privação de liberdade e as barbaridades cometidas por aqui para noticiar o sofrimento e o desespero alheios? E aqui? Ninguém sofre? Ninguém se desespera?

Faço votos de que a senadora retome sua vida. Mas não poupo críticas à mídia brasileira que, em vez de procurar soluções e discutir o drama de nossas famílias nativas, busca inserir-se no mercado internacional menosprezando o que é nosso.

Senso de nacionalismo? Não necessariamente, porém uma leve provocação sobre a fianlidade e os objetivos da mídia brasileira. Afinal, por que ainda não fizeram uma profunda reflexão sobre o alto índice de racismo em Salvador (BA)? Ou sobre o trabalho de prostituição nos rincões do país? Ou sobre as igrejas estelionatárias que arregimentam milhões de desesperados prometendo bem-estar? Ou sobre os métodos heterodoxos da igreja tradicional, mantendo bandidos entre suas lideranças? Será que vamos ter de esperar a imprensa estrangeira denunciar estes problemas como sempre faz?

terça-feira, 1 de julho de 2008

Cimento eleitoral

A estupidez aliada ao desejo fremente de conseguir votos de todas as maneiras devem ser os pressupostos que levaram o senador carioca a instituir o programa cimento eleitoral. De acordo com o programa, as casas de latão, de ferro e de outros materiais seriam substituídas por cimento e tijolos.

O mais lamentável dessa situação é que as casas de tijolos, que substituiriam as de latão e de outros materiais, seriam erguidas nos morros. Apenas para lembrar, os morros são aqueles locais quase inacessíveis, onde o abastecimento de água e de luz beira o incrível, as linhas telefônicas são deslocadas e duplicadas ilegalmente, o saneamento básico não chega e pelas ruas não transitam carros. Na verdade, as ruas não são ruas. São vielas.

É verdade que os morros também são grandes laboratórios de discussão sociológica e jurídica, principalmente quando se envereda pelas questões do pluralismo jurídico. Mas não precisamos de teorias acadêmicas, precisamos de práticas que tirem o povo da miséria. Numa casa de verdade, de tijolos, com água encanada, saneamento básico, energia elétrica e linha telefônica, sendo possível o trânsito de carros, de biciletas, de pessoas.

O historiador Nicolau Sevcenko debateu em "Literatura como missão" (Companhia das Letras) a trajetória e o perfil dos escritores Lima Barreto e Euclides da Cunha. Numa parte do livro, na que se encontra a contextualização da sociedade da época, consta um extenso relatório de dados de pessoas vivendo empilhadas em quartos, em banheiros e até nas escadas de antigos casarões. Calamidade. Essa situação alarmante deteriorou-se e se perpetuou. Estamos no século XXI vivendo em condições piores do que as de fins do século XIX.

Se escolhessem melhor seus assessores, o senador e o presidente da república que assinaram a autorização da construção de casas deveriam ter pensado na urbanização daqueles territórios e não na simples finalidade de conseguir votos nas próximas eleições municipais. Trocar as casas de latão por casas de tijolos, mas mantendo um padrão incompatível com a dignidade (energia elétrica e água de procedência duvidosa, linhas telefônicas duplicadas, falta de saneamento básico e de ruas, além do patrulhamento de traficantes, bandidos e policiais disfarçados de pele de cordeiro) é como colocar uma colher de sal na boca de alguém que está com pressão baixa, mas não resolver problemas mais profundos de saúde. Pode ajudar na hora, mas a dor de cabeça continuará.

Precisamos de planos eficazes que possibilitem a desocupação, a deslocação da população para áreas assistidas de estrutura básica e o reflorestamento dos morros, possibilitando uma nova constituição da paisagem urbana carioca. Precisamos de mudanças profundas. Quando elas virão?

Enquanto elas não vêm, traficantes, bandidos e milicianos continuam seu império fora da legalidade sustentados juridicamente por aqueles que, em suas políticas falhas e medíocres, estabelecem novas hierarquias de medo. Medo que ajudará na eleição de cretinos com propostas idênticas.

Quando vamos nos livrar desses cretinos incapazes de mudar nossa país?